Passagens de Damasco دمشق الشام

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O souk al-Hamidia, com a sua passagem coberta por um telhado metálico com inúmeras aberturas que deixam penetrar os raios de sol criando o efeito de um céu estrelado na penumbra interior, revela-se demasiado irresistível, oferecendo-me a possibilidade de refúgio face ao caos das ruas circundantes. Vejo-me num tipo de passagem feérica que me é oferecida como uma rosa damascena, onde se concentra todo um imaginário que fui construindo nos últimos dias, desde que a «ameaça síria» se tornou mais do que um motivo de retórica romanesca e foi caindo nos meus dias sem que eu desse por isso. Mas, agora, à medida que, como um flâneur nostálgico, me adentro na passagem, a «ameaça» que pela manhã começara por manifestar-se na forma das incontornáveis formalidades fronteiriças para obtenção de visto, na arrogância policial, nas manigâncias da pequena máfia dos taxistas e na presença em todas as vitrines e fachadas dos edifícios da moldura asfixiante do presidente Assad trajando uniforme militar, como que desaparece deixando trabalhar livremente o olhar.

Eis a experiência de uma outra Damasco (دمشق الشام Dimashq ash-Sham) que alimenta o olhar, a memória e a imaginação prometidos n´As Mil e Uma Noites por Xerazade a Harun al-Raschid, num códice que circulou na Síria no século XIII e foi lido por califas, vizires, vendedores e mercadores. Como o flâneur baudelairiano de que fala Benjamin, no meu passeio ocioso procuro, agora, «virar para fora o forro incandescente e colorido do tempo» e, momentaneamente liberto da «ameaça síria», praticar uma observação ao mesmo tempo distraída e atenta, absorta e disponível, celebrando o olhar como se o bazar otomano que percorro, construído em 1863 pelo sultão Abdulhamid, fosse o sujeito activo desta flânerie oriental que me vai revelando um mundo fervilhante de sensações adormecidas, paralelo ao caos ruidoso, incandescente e ameaçador das ruas exteriores.

Nesta rua salomónica, uma multidão de mulheres ávidas, astutas, activas e sensuais sob os véus islâmicos que as cobrem celebram o prazer da distracção, alimentado pelo olhar e pelo desejo suscitado pela imensidão de cores, púrpura, azul escuro, amarelo vivo e preto, dos vestidos beduínos bordados à mão, dos lenços de seda multicolores, dos algodões estampados, dos tapetes persas, das almofadas damascenas, dos cobres trabalhados, da joalharia; pelo perfume das especiarias e frutos secos; e pelas vozes misturadas dos vendedores de água, sumos, xaropes e café. Há nesta dobra do tempo uma aura que amplifica a imaginação. Não há aqui qualquer imposição para entrar nas minúsculas lojas da extensa passagem. E tudo é atraente, «aberto», contrastando com a ideia de fechamento imposto pela religião omnipresente e com a natureza monolítica do regime sírio pairando nas fachadas dos edifícios nas avenidas do exterior. Até mesmo o olhar de algumas mulheres de rosto velado, ciosamente encoberto, deixa transparecer o prazer das compras. Faço-me, por isso, também, comprador, percorrendo lojas, regateando preços de objectos cujo valor exacto nunca se conhece, como se o preço dito no início fosse apenas a ponta de um enigma que pode levar a preços finais tão conforme o desenrolar da  situação ou a nacionalidade do comprador; desvelando o mistério das coisas que se encontram à vista; penetrando na sedutora intimidade que há entre cada comerciante e os objectos expostos. Todos os sortilégios são permitidos até se chegar ao entendimento final, levando, depois, comigo uma toalha de seda bordada a fios de ouro daqui, um lenço de lã de camelo dali, um punhal otomano acolá, um darguilé mais além, cenas do livro de Xerazade pintadas à mão mais adiante; e, no final da rua, um gelado sírio de pistachio! 

Chego ao final da passagem que se abre para a grande mesquita dos Omeyadas onde se respira tranquilidade das orações e fico com a impressão de, por momentos, ter atravessado o forro de um tempo suspenso à espera da próxima «ameaça» que parece não se encontrar na mesquita que me recebe com a hospitalidade devida ao estrangeiro, mas sim nos labirintos sombrios do fanatismo religioso e da arrogância norte-americana.

É tempo, talvez, de esquecer esta narrativa pré-corânica e evocar, agora, o poeta sírio-libanês Adónis, perguntando para onde vai a «arabidade do coração», esse «Yemen original, cujos souks eram veias e artérias de um corpo que não seria nem sonho nem realidade», antes a tentativa de encontro entre o reino de Salomão e o reino de Adão, perseguida pelos múltiplos narradores das Mil e Uma Noites. Parece que para o abismo para onde o empurram todos fundamentalismos: o islâmico e o do capitalismo glamoroso e desalmado do ocidente. Por isso, com Adónis, contra o fanatismo religioso ou capitalista, talvez perseguir uma terceira via.

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