Estrada de Damasco

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Talvez por em Doutor Pasavento também ter frequentado a rue Vaneau, em Paris, onde «no [número] 20, se encontra a embaixada da Síria», quase sem dar por isso fui entrando em contacto com aquele país. Seria essa a «silenciosa ameaça», que pairava naquela rua como alguem avisou Vila-Matas? O que é certo é que desde a leitura de Pasavento, a Síria começou a insinuar-se nos meus dias sem que eu fizesse nada por isso. Muito menos imaginava que, algum tempo depois da invocação síria deVila-Matas, estaria a telefonar para o mesmo número 20 da rue Vaneau, para obter informações sobre vistos de entrada na Síria. E que sabia eu da Síria, antes? Como Pasavento sabia «apenas que a capital era Damasco, tinha-o aprendido na escola. E mais alguma coisa? Embora não conhecesse o seu nome, sabia como era fisicamente o presidente da Síria, tinha observado nas fotografias que usava bigode, era bastante alto e costumava vestir-se ao estilo ocidental. Mas era tudo o que sabia sobre a Síria» (pág.23). A isto acrescentaria eu, ainda, a guerra com Israel pela posse dos Montes Golã, conspirações contra o Líbano, a acusação americana de integrar um certo «eixo do mal» e outros episódios fronteiriços recentes. Depois, fui-me lembrando que por lá corria esse rio antigo, o Eufrates, em cujas margens nasceu a História; que as pedras romanas de Bosra e Palmiria lá permanecem para gáudio dos turistas, e que nas areias do deserto se erguem ruínas indecisas de castelos e igrejas mandadas eregir pelos cruzados, o mesmo deserto de pedras de sílex tantas vezes atravessado por T. E. Lawrence, com promessas de liberdade para os Árabes; que a Rota da Seda, vinda dos confins da China, atravessara o seu território até aos portos do Mediterrâneo onde navios de velas brancas esperavam as caravanas de camelos; que nos souks e ruelas de Alepo, onde abandonamos o corpo e a alma, ainda sopra o mesmo movimento de outrora . E que Damasco, com as suas madrassas, os seus palácios das mil e uma noites, a grande mesquita dos Omeyyadas,  foi  descrita, no século XII, pelo viajante Ibn Jubayr, como o «paraíso do Oriente». 

Era esta Síria que, sem dar por isso, começara a cair nos meus dias, como que a preparar um certo terreno propício a uma certa decisão que eu próprio ignorava ainda. E, no entanto, havia outros outros acasos que prenunciavam, senão a ameaça síria, pelo menos uma intromissão árabe. Primeiro, através dos trilhos de Paul Bowles e, logo depois, de Albert Cossery, que me levaram desde Tânger, atravessando o Sahara, até às ruelas pobres da vagabundagem infatigável do Cairo dos anos 40. Sim, também o livro de Elias Canetti, Maraquexe, que comprei na Feira do Livro. E que dizer do meu interesse súbito por Adónis, o poeta rebelde sírio-libanês que comecei a ler depois da minha experiência na rue Vaneau» – e que ousou declarar que «o véu não cobre apenas o rosto, recobre também o cérebro»? Não se poderia ver aí outro sinal, ainda que os versos generosos de Adónis não colham a simpatia da Síria? Ou no livro de Pietro Citati, Israel e o Islão: as centelhas de Deus [Cotovia, 2005] – que estou a ler – e que fala do feérico reino de Salomão, da moldura das Mil e Uma Noites – cujo códice mais antigo que se conhece provém, precisamente, da Síria – com os seus califas, vizires, mercadores, as suas geografias fantásticas; que ilumina a Palavra dos Pássaros, do poeta Farid al-Din Attar que viveu na Pérsia, no século XII; e que, sobretudo, evoca a utopia de aproximação do reino de Adão ao reino de Salomão que sucessivos fundamentalismos, cristãos, judaicos e islâmicos enterraram, como diz Adónis, na «poeira de tinta vermelha» do deserto?

Só depois desta série de acasos é que irrompeu Amman em forma convite para uma reunião. E, no imediato, não pensei na Síria. A ideia seria permanecer uma semana na Jordânia, ir até Jerash e depois até ao Sul, a Petra, claro, e talvez a Wadi Rum seguindo o trilho de Lawrence da Arábia.

Por isso, eis-me agora numa Amman, aparentemente muito ocidentalizada, mas onde me “aproximei” esta tarde da estrada de Damasco, vagabundeando no caótico souk de Al-Balad, ladeado pela mancha branca do calcário das casas que descem as colinas e sempre acompanhado pela música das vozes que se misturam entre as bancadas de azeitonas, sumos, beringelas, cerejas, especiarias, panos de seda e outras bagatelas de toda a espécie.

Nao sei ainda se esta será mesmo a estrada de Damasco, pois a ideia é fazer uma escapadela de dois dias (dependerá do visto a pedir na fronteira). Entretanto, espera-me o Mar Morto e Petra de todas as cores, rosa, vermelha, verde, amarela e azul. Nomadismos.

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