Jonathan Safran Foer

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«Todos os livros são sobre a perda», diz Jonathan Safran Foer, um dos mais promissores escritores norte-americanos, segundo a revista Granta, tal como Nicole Krauss, sua mulher, autora de A história do amor [Dom Quixote] que evoquei num post anterior. Pelo menos os livros que escreveu W. G. Sebald são sobre a perda. Livros sobre a consternação do mundo, sobre as ruínas que o nosso tempo vai amontoando. Tijolos sobre tijolos. E ninguém na paisagem desolada do tempo que passa. Apenas a literatura para gravar no papel o desvanecimento da História. Meditação sobre a perda colectiva. Que Jonathan Safran Foer também procura empreender adentrando-se no mundo que,  literalmente, desaba à sua volta, como acontece em Extremamente alto & incrivelmente perto [Quetzal, 2007] que temos agora a oportunidade de ler, depois do seu primeiro romance Está tudo iluminado [Temas & Debates].

Em Tudo se Ilumina, através de dois tempos e duas instâncias narrativas, contam-se duas histórias: a do escritor americano que viaja à Ucrânia em busca das suas raízes; e da própria povoação de origem que mais parece uma Macondo judia e europeia. Em Extremamente alto… , Oskar é um órfão do «dia mais triste de todos os tempos»: o seu pai desabou com as torres do WTC e com elas também os arquétipos de uma criança que não consegue parar de inventar mundos paralelos; noutra história, contada através das cartas escritas pelos avós, é a paisagem de destruição de Dresden durante a Segunda Guerra Mundial que surge carregada de fantasmas do passado. O que me lembra outra vez Sebald evocando as marcas da destruição de Berlim. Depois, há ainda a retórica da fotografia, da rasura, das mãos do avô, inscrevendo Jonathan Safran Foer num pós-modernismo compósito que alguns acusam de pouco original. 

Mas outra maneira de abordar a questão é considerar Foer como um jovem escritor que pega no lastro de uma certa literatura, retraçando a partir daí o que antes já fora traçado de outra forma. De resto, Foer não recusa a influência de Sebald, cuja escrita compara a «um machado afiado»; ou a aproximação à agudeza judaica de Philip Roth do período de O complexo de Portnov (não esquecer que Foer é judeu e a sua ainda curta obra persegue o lastro dessa herança, reinterpretando-a à luz da contemporaneidade); ou a integração de um sopro surrealista que não destoaria de algumas páginas de Kurt Vonnegut; ou, talvez, antes de tudo, a auto-referenciação a um certa arquitectura narrativa que evoca Laurence Stern.

 

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