Coloane do fim do mundo

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Na revista Atlântica, que hoje é apresentada em Portimão, partimos do promontório de Sagres, «no último veleiro», em direcção à margem mais austral do mundo. Doutor Pasavento, a personagem de Enrique Vila-Matas que aqui tenho convocado várias vezes, chama a essas terras do fim do mundo, a nossa Patagónia pessoal, onde poderíamos, se quiséssemos, desaparecer nas estepes magalhânicas. Aí, entre a sua ilha natal, Quemchi, o Cabo Hornos e o silêncio da Antártida – «escenario de catástrofes telúricas y de atroces iniquidades humanas» –  viveu e escreveu Francisco Coloane, «o mais anfíbio dos escritores», como o classificou Volodia Teitelboim num belíssimo texto que a Atlântica publica neste número. Aí regressa, agora, em cada maré. Uma espécie de Jack London sul-americano que, entre o silêncio e a natureza, entre a vida e a morte, entre a amplitude e a finitude, entre a tempestade e a calma, desenhou o mapa das latitudes austrais do mesmo modo que Jack London o fez com os extremos setentrionais.

Pancho, como era conhecido, nasceu em 1910, na fronteira húmida e salubre que liga a ilha de Quemchi ao mar, um espaço ambíguo povoado de pássaros marinhos – «lugar de gaviotas grandes» – e de ressonâncias de naufrágios – como as daquele navio vindo da Europa, carregado de pianos, que naufragou no Estreito de Magalhães, e cuja história o próprio Coloane contaria, muitos anos depois, num encontro de escritores em Saint- Malo. Na sua casa materna, uma palafita com um pequeno bote à porta, penetrava o sopro do Pacífico, cujo aroma não mais o abandonaria. «… Hay veces en que despierto al borde de un abismo donde termina el mar de mi infancia; pero siempre encuentro a alguien a mi lado. O una música lejana que viene de mis islas, traída por el tamborileo de la lluvia sobre los techos del viento. Bajo esas aguas del tiempo y en el fondo de mí mismo, no veo otra cosa que un hombre, una mujer y un niño, jugando con un bote a orillas de nuestro mar interior de chilote, al cual le han puesto un mástil y un timón, esperando un soplo en la vela, para hacerse a la mar entre las islas». Abandonou cedo a escola para começar a trabalhar: foi pastor e cabo de esquadra nas haciendas da Terra do Fogo, participou na exploração petrolífera no estreito de Magalhães, viveu junto dos caçadores de focas e navegou durante anos a bordo de um baleeiro.

Talvez, por isso, Neruda viu nele um «hijo de la balena blanca», numa alusão a Melville que Coloane leu apaixonadamente. Em Portugal, Coloane vive, sobretudo, na Teorema, onde podemos ler Terra do Fogo, Cabo Hornos O caminho da Baleia; na Europa-América encontramos O último veleiro e na Cavalo de Ferro Naufrágios. Em qualquer destes livros encontraremos sempre a verdadeira inocência do agir e uma escrita «a partir de uma barricada, do lado dos injuriados», que influenciou toda uma geração de escritores chilenos como, por exemplo, Luis Sepúlveda.  São sempre histórias que num fluxo e refluxo oceânico recolhem a herança literária de Melville, de Conrad, de Stevenson ou de Jack London e que continuamos a ler com a nostalgia da adolescência perdida.

Quando morreu, em 2002, com 92 anos, Coloane pronunciou as mesmas palavras que muito tempo antes também o seu pai, um mestre baleeiro, tinha pronunciado: «Volvemos al mar». Por isso, se o quisermos encontrar fora dos seus livros, é no mar que devemos procurar. E talvez o encontremos nas ressonâncias inauditas daqueles pianos que um dia naufragaram nos mares do sul e cujo concerto patético se pode escutar, ainda, em noites de tempestade magalhânica.

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1 Comentário

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