Um anjo sobre Berlim

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«Dans le port d’Amsterdam / Y a des marins qui meurent/  Pleins de bière et de drames/ Aux premières lueurs/  Mais dans le port d’Amsterdam/  Y a des marins qui naissent/ Dans la chaleur épaisse/ Des langueurs océanes…», este o primeiro porto do território de nostalgia por onde errámos com Ute Lemper, no Sábado, em Faro, no Teatro das Figuras,  transfigurado durante hora e meia numa espécie de cabaret iluminado apenas por uma voz épica, cintilante, poderosa. Contos cantados em alemão, yiddish, inglês e francês que levaram o público «numa viagem no tempo e no mundo, pela minha vida em Berlim, Paris, Londres e Nova Iorque, sem esquecer as minhas dúvidas e medos», disse Ute Lemper na apresentação de Angels Over Berlim and The World, espectáculo baseado no novo álbum já gravado, mas que só teremos oportunidade de ouvir em Setembro.  Com uma singular noção de espectáculo, Ute Lemper evocou reportórios de um tempo que não sobreviveu ao século XX: Jacques Brel – «o belga mais francês que cantou os medos e as queixas do mundo», Jacques Prevert -, Edith Piaf, Léo Ferrée, Bertolt Brecht e Kurt Weil (Bilbao Song e Ópera dos Três Vinténs), Marleene Dietrich (Lilli Marleene e Lola), Van Morrison (Moondance), The Doors (Wiskey Bar) e também algumas canções em yiddish («quase como um dialecto do alemão, mas com muito mais paixão do que o alemão»)… e outras que compôs para cantar a consternação dos dias que correm, para olhar de frente este «mundo indecifável, pouco transparente» e, ainda, carregado de fantasmas. Por isso, no novo álbum haverá uma canção sobre Berlim, chamada Ghosts of Berlim, numa homenagem àqueles que tiveram de abandonar a Alemanha nazi e àqueles que ficaram para ser assassinados. Um espectáculo e um álbum «contra o lixo, contra os reality shows que estão a moldar uma geração inteira» afirmou Ute Lemper, atirando para um novo guetto o cabaret berlinense. Talvez não, pelo menos enquanto a voz de Ute Lemper não se calar.

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2 comentários

  1. “Talvez não, pelo menos enquanto a voz de Ute Lemper não se calar. (…)”
    Passo … normalmente em silêncio, mas este texto e o apelo de Ute Lemper fizeram-me abrir esta janela e gritar bem alto – Gostei ! Gostaria de lá ter estado …
    isabal victor

  2. Também lá estive, nesse espectáculo que não cabe em nenhuma gravação, pois transcende a música e os textos, abre-se num arco voltaico de emoções, de drama, de vivências, de memórias, que Ute Lemper interpreta com a voz, o corpo e a alma, se tal coisa existe, à falta de outro vocábulo.


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