A última passagem de Walter Benjamin

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Suprema ironia a de acordar, na madrugada, com o apito seco e cortante de um combóio que, afinal, partiria sem ele deixando-o com a sua solidão no cais de embarque. «O primeiro combóio para Lisboa», tinha-lhe recomendado a senhora Fittko quando se despediu dele, em França. Mas, mais uma vez as suas asas incertas de borboleta nocturna tinham falhado, incapazes de o levarem para fora daquele quarto de hotel, na pequena localidade de Port Bou. Na escuridão do quarto sem janela, um sopro de luz irrompe sob a porta, acordando nele a recordação da Vista de Delft, de Vermeer. «Nesse momento, era o seu próprio pequeno pedaço de muro amarelo que pestanejava no seu quarto … com a promessa de um descanso definitivo», como Bergotte, a personagem de Proust que depois de encontrar a luz palpitante no canto esquerdo do quadro exposto em Paris, teve uma epifania, a revelação de que aquela luz que continuava a brilhar há quatro séculos valia toda a sua obra de escritor. Como uma borboleta atraída pela luz, também Proust procurou a mesma mancha amarela. Seria a última vez que saiu de casa.

Agora era a vez de Walter Benjamin que filtrando a memória daquela luz vista por outros, «sem se deixar levar pelas asas incertas da mariposa», caminhava pelo cais do seu último embarque, escapando aos «rabos de ratazana da Europa». A mariposa de Schiller já não estava ali. Apenas um filósofo que descobrira o secreto esplendor que a sua solidão irredutível produziu nas trevas e a paixão de ter sido estrangeiro sempre e de não ter tido nunca nada, a não ser a mala preta pousada no chão ao lado da mesa de cabeceira, onde guardava os últimos «labirintos de tinta embebidos nos seus cadernos». Afinal, não chegara tarde a esta última fronteira onde já não lhe exigiriam nenhum salvo-conduto «e, com a mesma alegria de quem verifica que, apesar de todos os contratempos, não tinha chegado tarde ao encontro, soltou um suspiro de alívio e fechou pacificamente os olhos atrás dos  seus grossos óculos de míope».

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1 Comentário

  1. Depois de ler as palavras que nos deixou hoje… devo confessar que fiquei com vontade de ler “O passageiro Walter Benjamimn” de um só “trago”…

    p.s gostei do novo visual

    abraço

    Hugo Miguel Costa


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