Janela indiscreta

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Há filmes que eu veria dia sim dia não se tivesse tempo: Fellini, “Oito e Meio”, a “Lolita” de Kubrick, “O Crepúsculo dos Deuses”, “A Hora do Lobo”, de Bergman, “Janela Indiscreta”, de Hitchcock, “As Férias do Senhor Hulot” ou “O Meu Tio” de Jacques Tati, ou “O Padrinho”…, confessa David Lynch, e eu que tenho andado muito “lynchiano” nas últimas noites, revisitando quase toda a sua filmografia – O homem elefante [1980], Dune [1984], Veludo azul [1986], Um coração selvagem[1990] , Estrada perdida [1997], Uma história simples [1999] e Mulholland Drive [2001], enquanto a minha condição periférica não me permite ver Inland Empire, acabado de chegar- (como poderei rever Os últimos sete dias de Laura Palmer e Eraserhead que nunca vi e não encontro nos meus videoclubes?) – disponho-me a rever os filmes da vida de Lynch.

Ontem à noite vi Janela indiscreta que Lynch considera a obra-prima de Hitchcock.  O cinema na sua perfeição, despojado, muito próximo do “cinema puro” – recorrendo a um único movimento da câmara, ao desenrolar de toda a história a partir de um só lugar (o quarto de Jeff/James Stewart que é, afinal, a sala onde nós próprios vemos o filme), à projecção simultânea de vários écrans (as outras janelas) dentro daquele único que está em nossa casa (hoje, quase só é possível ver o filme em DVD). O voyeurismo como natureza humana, ou uma extraordinária lição de arte, e não apenas de cinema. Os dois travellings de abertura mostram toda a dialéctica do filme: num, com uma virtuosidade surpreendente, é-nos mostrado tudo o que relacionou com o acidente de Jeff, um fotógrafo “errático”, a câmara fotográfica, as fotografias de corridas de automóvel, o gesso na perna, a personagem imobilizada, dormindo numa cadeira de rodas; no outro, observamos o mesmo que Jeff pode ver através da sua janela traseira, um casal feliz, uma jovem bailarina, um pianista sem inspiração, uma senhora solitária, um casal que discute muito… O elemento que vai ligar Jeff ao outro prédio é Lisa Fremont (Grace Kelly), uma estilista “sedentária” da classe alta que deseja casar com o desajeitado fotógrafo, que prefere ir ficando solteiro, namorando com Lisa e fazendo fotografias pelo mundo. Contraditoriamente, o que Jeff observa através da sua janela é o casamento dos outros que não quer para si, revelando a fobia social hitchcockiana. Mas como noutros filmes, o realizador segue aqui o seu procedimento habitual, passando da observação estática à acção, através de Lisa que actua como um operador simbólico – ao agir para desvendar um crime que constitui apenas o pretexto necessário para o realizador desenvolver o tema – entre os dois prédios, e entre a quase infantilidade da atitude inicial de Jeff e a sua maturidadade final. Hitchcock não só nos faz ver tudo isso como mostra ainda o que parece não estar lá, dando um prazer total ao espectador – que tal como Jeff e Lisa também deseja o crime. Finalmente, através de Lisa é, afinal, Jeff quem se introduz no universo do outro, numa dialéctica do desejo que não é mais sedentário e que sucumbe à intuição feminina na última cena do filme: a  revista de moda trocada pela dos Himalaias.

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1 Comentário

  1. Uma história simples [1999]

    Adoro este filme …
    (é uma carta fora do baralho da filmografia de S. K. mas, para mim, é a pérola das pérolas !)


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