Portugal: um retrato social

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Ontem passou na RTP1 o 4º episódio da série documental Portugal – Um retrato social, da autoria de António Barreto, com realização de Julia Pontes e pesquisa documental de Maria João Silva. Um programa que é uma raridade num serviço público que falha no essencial, apagando tudo aquilo que seria importante para ajudar a traçar rumos para o país ou, na melhor das hipóteses, atirando para horários impróprios tudo aquilo que é susceptível de informar, debater e aprofundar questões, como competiria a um verdadeiro serviço público de televisão. Mas não, o que sobra são concursos e telenovelas de fraca qualidade e telejornais que em todos os canais seguem o mesmo alinhamento, como se todos os critérios jornalísticos e editoriais fossem os mesmos. É, pois, excepção o programa de António Barreto, que não aparece, mas assina com a sua voz a locução “off”, intercalando com entrevistas recentes ou antigas as sequências de imagens de arquivo ou filmadas para este documentário.

Trata-se de uma narrativa que visa retratar a sociedade portuguesa contemporânea através do confronto entre o país actual e o das últimas décadas. Quem somos nós? Uma Nação velha e um Estado antigo. Um povo com um marcado sentimento de identidade  e uma viva consciência do seu passado e de uma grandeza pretérita. Mas, também, gente que vive com a convicção, desde finais do século XVIII e inícios do século XIX, de um atraso crónico e crescente relativamente aos outros países vizinhos.  Empobreceram-nos, escreveu um dia Jorge de Sena. Ainda assim, no final de cada programa, ficamos com a convicção de que o país mudou e, em muitos aspectos, para muito melhor. Os que viveram essa mudança sabem-no bem, embora, às vezes, pareçam esqueçê-lo. Os mais novos ignoram muitas dessas mudanças. A emigração, a guerra colonial, uma revolução política e social, a fundação do Estado democrático, a descolonização, a adesão à União Europeia e a imigração foram alguns dos acontecimentos ou fenómenos históricos que marcaram as últimas quatro décadas e que provocaram ou aceleraram mudanças sociais profundas,  revelando a sociedade uma notável plasticidade.  Diminuição da mortalidade infantil, integração das mulheres na população activa, expansão do sistema escolar, aumento dos rendimentos familiares, terciarização, declínio das actividades agrícolas, abrandamento relativo das actividades industriais, desenvolvimento do Estado de protecção social…, eis algumas das mudanças mais visíveis. E contudo, não foi fácil libertar um país de tudo aquilo que o marcara durante décadas: a ignorância e a reverência, a delação e o medo, o autoritarismo e a repressão. Mas que o país mudou, que se aproximou dos padrões de vida e de comportamento europeus é um facto.

Na última década, contudo, renasceu a incerteza, a dúvida. A um período de crescimento e desenvolvimento seguiu-se um tempo de recessão ou de estagnação com efeitos psicológicos profundos que, ainda, estamos a sentir. Quem conheceu melhores tempos, quem viveu ritmos de progresso muito marcados, sente-se, agora, ameaçado pelo abrandamento, pelo esgotamento. Tornámo-nos um país a roçar a depressão bipolar. Tão depressa somos os “maiores”, como rapidamente baixamos os braços e nos transfiguramos em incapazes, indiferentes. Por isso, contraditoriamente, no final da cada programa, ficamos, também, com um certo amargo de boca, pois continuamos a ser aquele país com medo de existir, incapaz de poder arrancar decidida e decisivamente no encalço dos nossos parceiros europeus. Não porque isso seja um destino ao qual não podemos escapar, mas, sobretudo, porque o nosso atraso é a consequência de muitos anos de políticas erradas e de uma forma de estar cada vez mais arreigada nos portugueses, que preferem atirar o lixo para debaixo do tapete, viver à margem da apreciação crítica, pactuar com a mediocridade e cultivar a inveja. Talvez um programa para ir vendo ao mesmo tempo que se lê o livro de Lídia Jorge, onde Portugal “se deita no divã”.

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1 Comentário

  1. Gostei muito do primeiro. Apreciei a metodologia de abordagem dos factos da história recente de Portugal a partir das pessoas, o recurso a “histórias de vida” , a visão diacrónica das múltiplas realidades e visões em confronto, etc etc.

    do segundo já não gostei tanto …
    senti que a coerência e acutilância se foram perdendo,
    a nitidez do discurso inicial comprometida

    por fim …
    deixei de ver.


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