Nomadismos

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Fui fotografando calmamente, sem ansiedades, porque mais importante do que as imagens eram as palavras, as conversas. Tinha a nítida sensação de estar perante um sábio, um homem que tinha vivido, traçado o seu destino, encontrado a sua alma. A casa e a pessoa de Bowles irradiavam serenidade, apesar da sua biografia e do monte de malas na entrada lembrarem outras existências, escreveu Daniel Blaufuks comentando o seu ensaio fotográfico sobre Paul Bowles. Para quem não pôde ver, como eu, a exposição no CCB, poderá, agora, entrar na existência de Bowles através da sua autobiografia Memórias de um nómada que a Assírio & Alvim acaba de editar. Para já, a primeira mala que descobri foi a que ele levou na sua primeira viagem a Paris, onde conheceu o poeta surrealista Tristan Tzara. Anseio por encontrá-lo em Tânger. Entretanto, vou entrando na intimidade de alguém que na sua juventude já escreve sofregamente, deixando cair no papel without stopping uma torrente de palavras: muitos contos, novelas, traduções de amigos marroquinos, livros de viagens… Para ler ao mesmo tempo, a reedição, também pela Assírio & Alvim de Deixa a chuva cair, romance sobre uma cidade invisível, Tânger, por onde o autor errou durante grande parte da sua vida. Bowles, “desaparecido” em Marrocos, corresponde ao mito simpático do ocidental que rejeita o estatuto social da sua origem para se ocultar na distância libertadora do Norte de África. Impossível, por isso, não recordar aqui Manuel Teixeira-Gomes, diplomata e ex-presidente da República e, sobretudo, escritor de contos, novelas, livros de viagens… e viajante sem pressas por países e mares, da Europa à África do Norte e à Ásia Menor, através de cidades e portos onde mercadejou, amou mulheres múltiplas, visitou museus, leu e escreveu, como um dandy elegante. Também Teixeira Gomes escolheria para sua morada derradeira, Bejaia, na Argélia, onde viveu esquecido, tanto que, disse, se tivesse de mudar de nacionalidade, era entre Sarracenos que a buscaria. Talvez, então, acompanhar a leitura de Bowles com as Cartas a Columbano ou Cartas sem moral nenhuma, de Teixeira-Gomes.

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1 Comentário

  1. […] by casoual Da leitura de Memórias de um nómada e de Sob céus estranhos, de Daniel Blaufuks, aqui comentado por João Ventura, recordei-me do documentário realizado por Mohamed Ulad-Mohand, Un […]


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