O rapto da Europa

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Na manhã seguinte, nevava em Zurique. Saí do hotel com o chapéu de feltro e o meu guarda-chuva, e fui tomar o pequeno almoço ao velho e famoso Café Odeon, de que sempre se disse que Lenine, assíduo cliente daquele estabelecimento, pôde trocar mais de uma palavra com James Joyce, outro cliente habitual. Ah, o Odeon! Lembrei-me que Mata-Hari tinha ali debutado como bailarina. E a seguir imaginei uma cena impossível, imaginei Lenine a beber um café, enquanto lançava olhares furtivos a um exemplar de “Gente de Dublin”. Quem imagina a cena é Enrique Vila-Matas que reaparece aqui para nos evocar um certa ideia da Europa. Fim de tarde em Zurique, neva lá fora, Lenine, à mesa do café, imaginando uma revolução. James Joyce escrevendo a história moral da Irlanda. Mata-Hari ensaiando os primeiros passos na intriga internacional. A presença invisível, ainda, de Goethe, Hermann Hesse, Thomas Mann. A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kirkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. (…) Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da ideia de Europa, escreve George Steiner no ensaio A ideia da Europa, incontornável para percebermos  para onde caminhamos, quando se comemoram os cinquenta anos do Tratado de Roma. A Europa dos cafés, lugar de encontro de poetas, escritores, artistas, filósofos, revolucionários, “flâneurs”. Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino. Odessa: num café do guetto judeu, Isaac Babel põe em movimento os seus gangsters de papel. Copenhaga: Kierkegaard troca a universidade pelos cafés da cidade e lança as bases do existencialismo. Lisboa: no Martinho da Arcada, Pessoa inventa a mais profunda genealogia da literatura portuguesa. Fim de tarde em Paris: através dos vidros molhados por uma chuva oblíqua Walter Benjamin observa a coreografia de guarda-chuvas correndo apressados no Boulevard Saint Germain: a modernidade a ser pensada no espaço interior de um café para onde se transporta o mundo exterior. Budapeste, café Sirius, Deszó Kosztolányi em vez de pedir ao empregado um café: «- Garçon – dizia – tinta, síl vous plaît!». Este o primeiro axioma que Steiner convoca para pensar uma Europa, hoje, em perda de identidade. Desapareceram, entretanto, os cafés. Os que sobrevivem já não são habitados pela ideia de infinito, mas antes por uma espécie de melancolia generalizada dos europeus, servindo apenas de espelho retro-reflector de um esplendor apropriado à admiração de turistas nostálgicos, refinados ou fetichistas. Bruxelas é a capital do vazio, escreve Peter Sloterdijk no livro Se a Europa se levanta. A Europa como laboratório para a experiência do fim do mundo, conforme uma visão completamente apolítica da existência. Em vez dos cafés, os não-lugares sem alma dos centros comerciais. Em vez da conversa mobilizadora à mesa do café, a delegação política em expertocratas que gerem as coisas por nós, de modo a realizar o projecto de nos tornarmos os últimos homens, como afirmou Sloterdijk, em entrevista à Actual, publicada no Sábado passado. Permanece válida a pergunta de Czeslaw Milosz: Estes homens de negócios de olhares nulos e sorrisos atrofiados… É a esta vérmina que chegou uma civilização tão delicada, tão complexa? Em vez do infinito, o consumismo, como se a Europa tivesse perdido para sempre a sua alma faustiana habitada pela ideia de infinito. Assim como se eclipsaram os cafés da “velha” Europa, também a paixão metafísica se evaporou da nova cartografia espiritual europeia. A literatura já não é a grande máquina da modernidade. Quem são, hoje, os herdeiros da Mitteleurope? Quem transporta o fogo de Mann e Musil? Na Inglaterra, os grandes escritores são indianos, sul-africanos, ou emigraram para a América. Sebald já cá não está. A literatura encontra-se numa encruzilhada. Ou é uma literatura ensimesmada, sobre o nada. Ou reporta-se a inutilidades pós-modernas, a representações de consumo enjoado. Para onde vai a Europa herdeira das duas cidades, Atenas e Jerusalém? Com a queda do marxismo na tirania bárbara e na nulidade económica, perdeu-se um grande sonho de – como Trotsky proclamou – o homem comum seguir as pisadas de Aristóteles e Goethe. Nesta espécie de laboratório do consumismo em que se transformou a Europa, ainda guardamos algumas referências – a santidade do pormenor diminuto, dizia William Blake  de que é feita a nossa diversidade. Mas cada vez mais somos turistas de nós próprios, consumidores do efémero, perdidos no labirinto do novo Minotauro. Como olhar, então, o touro sem sucumbir ao fascínio do seu olhar que como um espelho restitui à Europa o seu feitiço, levando-a à perdição? Acredita, apesar de tudo, Steiner que o sonho pode, e deve ser, sonhado novamente. É, porventura, apenas na Europa que as fundações necessárias de literacia e o sentido da vulnerabilidade trágica da “condition humaine” poderiam constituir-se como base. É entre os filhos frequentemente cansados, divididos e confundidos de Atenas e de Jerusalém que poderíamos regressar à convicção de que ainda é possível enganar o Minotauro e inverter o ardil a favor da Europa. Talvez começar por aqui.

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2 comentários

  1. A Europa em que acreditamos é a Europa capaz, apesar de tudo, de se renovar, fiel à sua memória histórica. É a Europa que se encontra ainda em Lisboa, algures entre o Nicola e o British Bar. É a Europa do “outro”, de muitos outros que alguns teimam ainda em procurar
    na ânsia de inverter o ardil.

  2. Mas não será a noção de Europa demasiado restritiva para nós portugueses que temos o chamamento do sul para onde nos empurra o mar? Ou será que, talvez, grande parte de nós já se encontre encerrada no labirinto de Dédalo, aonde não chega o apelo do sul? Apesar de tudo, às vezes, ainda, encontramos um café numa esquina qualquer. Importa procurar.


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