Combateremos a sombra (II): os arredores do livro

Surpreende-se Lídia Jorge porque Manuel Maria Carrilho ficou surpreendido quando a escritora o convidou para apresentar o seu novo romance, Combateremos a sombra. Ele, também, nas palavras da escritora, um homem de causas. Como ela, digo eu. Depois, evoca Lilith, esse filme perturbante, esquecido, de Robert Rossen que, fica-se a saber, ambos viram. Um filme, desde logo, a aproximar a escritora e o apresentador. Ou melhor, o excelente leitor, como disse Lídia. E porquê este filme? Talvez porque, também em Lilith, as personagens interpretadas por Warren Beatty e Jean Seberg procurem viver contra o seu tempo. Talvez porque, também aí, os territórios do onírico nos sejam abertos por um decrifrador de histórias, um enfermeiro psiquiátrico. Ou talvez, sobretudo, porque também Rossen era um homem de causas. Esta evocação, enigmática, seria o primeiro assombro da noite de ontem, na Casa Fernando Pessoa, onde perante numerosos amigos, como Lídia Jorge fez questão de sublinhar, foi apresentado o romance Combateremos a sombra. Antes, já Carrilho tinha dito que por detrás da escrita enigmática da escritora, do outro lado da sombra era um país inteiro que se escondia. Um país fantasmal enredado numa teia pantanosa de mesquinhez, de mentira, de toda a espécie de tráficos que ninguém quer ver. Uma teia que não mostra os fios, apenas os nós, diz Carrilho que nos oferece uma leitura política do livro. Um livro político? Nem tanto. Lídia Jorge prefere-o como uma ficção com um assomo político. Mas esta é uma noite de confissões. Primeiro, as do livro – de Maria London – decifradas por Carrilho. Agora, as de Lídia que escolhe falar naquilo que ela chama os arredores dos livros. Como se escreve um romance? Como escreveu este romance ao longo de três anos? Mais um, o tempo que demorou o complexo namoro com Osvaldo Campos, o personagem que lhe vai entrando pela casa, sem que, primeiro, a escritora o deseje, mas que, depois, fica e não mais sai da casa do romance. Escrever é fácil, dífícil é encontrar um personagem com inteireza, explica Lídia. Ao longo de um ano Osvaldo foi povoando o seu sono e a sua vigília. Os sonhos são a literatura do sono, disse-lhe Carlos Albino durante esses dias. Agora o romance já podia ser posto em andamento. Depois vieram outras cumplicidades. Uma passagem pelos arredores do livro, com nomes próprios. Confissões. António Mendes Pedro, psicanalista na vida, que ajudou a moldar o psicanalista na ficção Osvaldo Campos, a controlar este funâmbulo, este trapezista sem fato e sem rede. Questão de verosimilhança. Outro cúmplice, Orlando Soares, que aferiu tudo o que havia para aferir sobre barcos. Os paquetes navegando na sombra. O porto de Lisboa onde mora a beleza, mas também espreita a ameaça. Até a atmosfera de Stavanger é mesma que Lídia descreve. Quando a gente se põe a escrever até imagina a geografia, diz. Outra geografia, ainda, a dos subterrâneos da criminalidade, por onde Lídia se aventurou guiada pelo jornalista Rui Araújo. A primeira leitora, Vera Monteiro Torres. O Duarte, também leitor, sempre. Três, quatro anos de vida de Lídia. 71 dias completamente isolada na casa da minha mãe, no Algarve. E, finalmente, a capa para cobrir tudo isto. Lídia telefonando a Manuel Tomás, pedindo-lhe as suas costas. Um ramo de rosas a incendiar a sombra Assombros: Osvaldo Campos, o meu Dom Quixote de estimação, as três mulheres, Maria London, a paciente magnífica, Rossiana, Ana Fausto, vidas de papel que se assemelham à vida de pessoas, um consultório de um psicanalista, um onirismo revelador, um país fantasmal, uma ficção com um assomo político. Um livro para combater a sombra. Hoje.

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2 comentários

  1. Creia-me um leitor atento e rendido à sua escrita e ao seu propósito.

  2. The site looks great ! Thanks for all your help ( past, present and future !)


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