As coisas mais simples

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Dizem que o poeta tem seis sentidos: os sentidos, com os seus traços lineares,/ são cinco como os quatro elementos mais/ o éter dos alquimistas. À volta deles anda o sexto/ que nasce da ideia do homem/ de que falta sempre qualquer coisa para atingir/ a perfeição.  O poeta habita uma casa na Mexilhoeira Grande. No quintal do poeta há uma figueira onde ele colhe, ao amanhecer, os figos de S. João, os primeiros, que se colhem/ com um gesto só, ficando inteiros na mão. Na biblioteca do poeta há um livro de D. H. Lawrence onde este aconselhou que se partisse um figo/ em quatro pedaços, para o comer, depois de deitar fora/ a casca. Mas o poeta que conhece múltiplas formas de comer um figo vai mais longe do que Lawrence e pensa também na figueira. Primeiro, os figos – mas poderia ser a mulher da fotografia avançando até ao fim do molhe, ou um homem encostado à porta do palheiro, ou ainda,  e sempre, a presença obsessiva do mar, do litoral, ou mesmo a visão das ruas cheias de gente de uma cidade qualquer – as coisas mais simples, portanto, como matéria impura que o poeta recolhe dos dias que passam. Depois, a árvore que lhe agarra a alma com os seus ramos ásperos que o poeta afasta, a mão transformada num prolongamento da figueira. A mesma mão com que o poeta traça o ângulo da frase, que mostra as coisas mais simples, assim como o seu avesso, ou a sua transcendência, porque o que é simples também pode ser o/ seu contrário. A mesma matéria impura que se estilhaça em mil pedaços pelo chão como um espelho quebrado da realidade que irrompe no poema, literal e figurativamente, inscrevendo um paradigma narrativo através do qual o prosaico invade o poético.  Agora a mão do poeta afasta os ramos da figueira e atravessa a fronteira de vida rasgada pelas coisas. Dos mil pedaços em que o espelho partido reflecte as coisas mais simples, solta-se um sopro metafísico que empurra o poema ao encontro da sua substância mais profunda e o impede de ganhar a ferrugem do tempo. Na casa do poeta cresce o deslumbramento diante de coisas tão simples como os figos do quintal ou a mulher da fotografia – o quotidiano irrompendo furtivamente no poema para logo ser desfocado, transfigurado, através da alegoria, do devaneio. O tronco da figueira/ (é agora um) corpo de mulher nua; (…) e o figo que o poeta tem na mão (fá-lo) sentir os seus seios macios; há também a intertextualidade que o poeta convoca desde a sua biblioteca numa busca da essencialidade poética – D. H. Lawrence, Shelley, os poetas gregos -. Há um trabalho sobre a história; há navegações errantes, partidas e chegadas, regressos, há um conceito de paisagem e uma imagem da cidade por entre as ruas cheias de gente; na casa da Mexilhoeira Grande, Nuno Júdice escreve um livro à luz do apocalipse,/ as primeiras linhas do ocaso: descrições, narrações, personagens, memórias, odes, uma carta. O livro chama-se As coisas mais simples e foi escrito com os cinco sentidos mais um, aquele que só os verdadeiros poetas têm.

Na curva da noite, arrumo as páginas do livro que o poeta escreveu. Limito-me a deixar tudo no seu lugar/ – a figueira, a fotografia, a biblioteca do poeta – como se nunca aqui tivesse entrado, e volto a sair,/ pela abertura redonda, para a grande praia do poema onde tudo recomeça.