Combateremos a sombra (I): Portugal no divã

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Comecei a escrever para poder responder a alguma coisa longínqua que me chamava. A realidade era mesquinha, não chegava, escrevia e no final da página conseguia esse percurso, confessa Lídia Jorge em entrevista publicada no Jornal de Letras. Três décadas depois do seu romance inaugural, O dia dos prodígios, a realidade continua a ser mesquinha e, por isso, Lídia Jorge continua a responder ao apelo do longínquo, agora com a maturidade literária que fez dela uma das escritores portuguesas mais premiadas. Esse percurso singular levou-a, quase cinco anos depois de ter publicado O vento assobiando nas gruas, a publicar um novo romance contra a mesquinhez e a mentira. Combateremos a sombra, que será apresentado na próxima 5º feira, na Casa Fernando Pessoa, é, como a autora sublinha noutra entrevista ao Ípsilon, um livro muito, muito português, espécie de divã onde Portugal se deita e nos revela o resultado de anos de recalcamento, de frustrações, de sujidade atirada para debaixo do tapete. São duas entrevistas que se complementam, antecipando o novo livro que vem aí. Com a lucidez que a caracteriza, Lídia Jorge diz que anos e anos de esmagamento conduziram o país a uma postura depressiva, por isso, no romance poderá ler-se, a certa altura, que calmantes e sedativos tinham-se esgotado nas farmácias. Sabia-se, via-se, lia-se nos jornais. Mais do que o desmoronar de uma ponte em Entre-os-Rios, são as próprias fundações de um país que roçam o abismo correndo o risco de, também ele se afundar nas águas escuras dos dias que correm. O ruir da ponte como metáfora de um país com medo de existir, anestesiado por sedativos e calmantes que escondem a verdadeira dimensão da nossa tragédia colectiva. Os autocarros puxados pelas gruas do fundo dos lodos ficavam a balouçar na imaginação ao longo dos dias revoltos. (…) Bastava amanhecer um dia mais claro e já tudo passava. Psicanálise de um país à procura de uma pele nova. Que está perdendo uma e ainda não encontrou a outra. Onde está tudo a descoberto. Há zonas em carne viva e zonas em carne morta. Por isso, é preciso agir, como escreve na sua agenda a personagem central do romance: a mentira é parente da morte, a análise é inimiga dos mitos, agir é preciso. Lídia Jorge age através da escrita deste romance, uma ficção com um assomo político, obedecendo a um impulso de melancolia, mas também de raiva contra este processo de revisão cíclica de marcar passo. A literatura como ética da responsabilidade e da convicção, que vale como denúncia, sobretudo, se tiver imaginação suficiente para responder a essa ética. Lídia Jorge acredita na possibilidade da mudança, por isso, assume-se como testemunha, com vontade de ser cronista do tempo que passa, recolhendo a matéria impura de que se veste a sua escrita. Eu prefiro que a escrita seja um vestido, diz. Um vestido que veste a realidade tanto com o que as suas páginas contém – isto é, as suas metáforas, as figuras, as vozes, os diálogos – como nas páginas que faltam, (…) o espaço em branco que se segue à última página, que continuamos a ler cem anos depois. E também com o que está nas linhas invisíveis que atravessam essas páginas. Lídia Jorge é uma escritora e uma mulher de acção. Neste romance age através do herói romanesco, o psicanalista Osvaldo Campos, colocando-se atrás do seu ombro, acompanhando-o num longo travelling, pedindo emprestada a voz que ele, por razões deontológicas, tem de silenciar. Apaixonei-me por este funâmbulo, este trapezista sem fato e sem rede. Osvaldo Campos é um homem justo (…), o meu Dom Quixote de estimação, com quem ando há muito tempo a conviver. Na vida age intervindo civicamente, empenhando-se em causas, como a do referendo ao aborto, perseguindo novas linhas de fuga para atravessar a sombra. Dando-se como aparecida.

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