Esta noite vi-te em Babilónia

Quem entrar, hoje, pela primeira vez, neste blogue e ler o post que agora ponho em andamento, talvez fique com a impressão de que entrou em algo que teve um começo anterior, pois faltará o contexto de algumas referências. O efeito poderá ser o mesmo da sequência inicial do filme Viagem a Itália, de Rosselini, evocado em Doutor Pasavento, livro que vem servindo de espelho a este blogue. Disse num post anterior que, talvez, também eu tenha algo a dizer lá mais para a frente. Mas esse lá mais para a frente é algo que decorre de uma narrativa pessoal que vai sendo construída e trilhada como um contínuo inacabado, como afirma Sandra Costa no Tubo de ensaio, composto pela sucessão fragmentária dos microtextos que pomos em andamento para aparecermos neste território inferior da blogosfera. Ora é esta afectação narrativa, e por isso literária ainda que sem literariedade, que poderá provocar no nómada da blogosfera o desejo de trilhar o itinerário que procuro gravar para memória futura. Posto em andamento este post, que já me levou por outro caminho diferente do que eu lhe imaginara – mas não será essa a natureza própria da escrita blogueira? – regresso ao que me caíu do dia, hoje, não sem advertir que de intertextualidades é feito este caminho no qual, o dizer é, sobretudo, um mostrar mais ou menos benjaminiano.

Serve este começo descontínuo não voluntário para mostrar um António Lobo Antunes (ver como ele se mostra na galeria do Público) que, hoje, ao contrário de Pasavento, se dá como aparecido ao lhe ser atribuído o Prémio Camões, ele que tantas vezes se assume como retirado ou, pelo menos, pouco dado a aparições mundanas. Não foi isso, também, que sucedeu a Vila-Matas que, por tanto querer ausentar-se de si próprio, se viu premiado  em Espanha, logo reaparecido? Vi Lobo Antunes, há dias,  nessa região interior que é o Doutor Pasavento e onde só entram alguns escritores, sentado num dos cadeirões que há ao pé da porta da entrada do Hotel Suède, na enigmática rua Vaneau, em Paris, a ler muito tranquilamente Le Figaro, enquanto Pasavento se dava como desaparecido, e logo pensei que ele seria para mim o sexto elemento da cartografia dessa rua, embora não descortinasse, ainda, o motivo. Mas tal como a Síria – outro elemento vilamatesiano da rua Vaneau -, até àquele momento um país remoto para Pasavento, intrometer-se-ia nos seus dias, também Lobo Antunes, soube-o logo, iria cair nos meus, nem que fosse, apenas, para o mostrar aqui, agora, a pretexto de um certo prémio literário, misturando ficção e realidade, como na conferência falhada de Vila-Matas, em Sevilha. Este jogo de espelhos – que se reflecte também neste blogue –  e que em Pasavento me mostra um Lobo Antunes que, fico a saber por aí, escreve em folhas de prescrição médica, no manicómio Miguel Bombarda, evoca-me a figura narrativa do acaso objectivo que André Breton utiliza em Nadja e que poderá servir de porta de entrada hermenêutica para o livro de Vila-Matas. O mesmo acaso objectivo que explica o facto de me cair no dia de hoje um Lobo Antunes, também ele um escritor-psiquiatra, como Pasavento, para além de Robert Walser que escrevia no manicómio de Waldau ou mesmo Morante, escritor de microtextos também num manicómio nos arredores de Nápoles. Ali, como aqui, a afectação literária a intrometer-se na realidade. A mesma realidade walseriana – minúscula, provisória, transitória – que Lobo Antunes utiliza como metal fundente entre ele e as palavras, para derivar numa escrita assustadoramente lúcida e emocional que nos puxa para o poço sem fundo do nosso inconsciente colectivo de portugueses, de onde, muito a custo, regressamos, depois, à superfície banal das nossas vidas, sacudidos por uma escrita caudalosa, profundamente irónica e sarcástica, mas carregada de lirismo, seja nos romances, caleidoscópicos, profundos, torrenciais, seja nas crónicas feitas da matéria mais simples para contar as coisas aqui em baixo .  “É um prazer lembrarem-se de mim”, disse, lacónico, ontem, quando lhe anunciaram o prémio. Tal como Pasavento, também, Lobo Antunes que, às vezes com uma certa arrogância, diz-se, se dá como desaparecido, procura, afinal, o reconhecimento como escritor. Mais uma vez conseguiu não passar despercebido.

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