Simulacro e realidade

Pensador do quotidiano contemporâneo, mas ineficaz na sua interpelação racional porque enredado na própria teia que teceu para abordar a sociedade de consumo onde, em sua opinião, tudo se desvaneceria e tudo não passaria de um simulacro da realidade travestida numa sucessão de acontecimentos transcendentes, Jean Baudrillard morreu ontem, em Paris, com 77 anos de idade. Crítico implacável da sociedade de consumo, e figura incontornável do pensamento pós-modernista, bastante próximo do situacionismo, deixa-nos uma visão apocalítica e nihilista da sociedade contemporânea para a qual não encontra redenção possível. Embora, pessoalmente, considere as suas teses exageradas e a sua argumentação, muitas vezes, hermética, registo o seu contributo para a constituição de um imaginário do mundo contemporâneo onde a impostura, a ilusão e o simulacro ganham cada vez mais verosimilhança face à própria realidade que ele lia como um hipertexto (recorde-se, a propósito a trilogia Matrix, dos irmãos Wachowski ou eXistenZ, de David Cronenberg, que terão sido inspirados por Baudrillard, embora o filósofo tenha dito que não revia neles). A partir dele actualizo a questão: que fazer quando a velocidade dos acontecimentos mediatizados ultrapassa os próprios significados, escapando, assim, à sua interpelação racional?