Literatura pós-moderna

 

Não há kimonos, nem bonsais, nem cerimónias do chá. Em vez de sushi , as personagens cozinham spaghetti. Apenas algumas referências toponímicas ou gastronómicas dão uma cor local a histórias que se passam, sobretudo, em Tóquio, mas que se poderiam passar em qualquer cidade do Ocidente. Sobretudo, nos EUA, tal é a profusão de símbolos do capitalismo pós-moderno que atravessam os livros de Haruki Murakami, novo ícone da literatura mundial, de quem se chegou a falar para atribuição do Nobel 2007, traduzido em mais de 40 línguas e lido por milhões de leitores em todo o mundo.

De Murakami acabei há dias de ler Crónica do pássaro de corda e antes já tinha lido Kafka à beira-mar; em Portugal encontram-se, ainda, traduzidos Norvegian Wood, Sputnik, meu amor e, recentemente, Underground.

Como definir os livros de Murakami? Pelo menos os dois que li. Uma mistura híbrida entre o romance negro à maneira de Raymond Chandler, um pouco de Kafka, um cheirinho a Borges, tudo condimentado com sexo, referências literárias, comida e, sobretudo, música, clássica e muito jazz, num ambiente, simultaneamente, penetrado por luz e sombra, familiar e estranho, real e onírico, onde se movimentam personagens desenraízadas em busca de identidade. Uma espécie de realismo mágico à japonesa através de mundos subterrâneos, literal e metaforicamente, do subconsciente colectivo do Japão moderno.

De comum, os dois romances têm, ainda, um discurso que imediatamente identifica o autor, fragmentário, às vezes caótico, mas, ao mesmo tempo, eficaz nos seus propósitos de artefacto literário susceptível de agradar a uma audiência globalizada. Ambos são, contraditoriamente, atravessados por um misto de encantamento e desajustamento das personagens face a valores dominantes no mundo actual; isto é, se por um lado, existe uma certa celebração da economia e cultura globais, traduzida num fetichismo consumista, por outro, as personagens mostram-se perdidas num mundo que não reconhecem, o que faz com que Murakami possa ser considerado uma voz do seu tempo, atrevo-me a dizer, um escritor pós-moderno se é que esta classificação significa alguma coisa.

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