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		<title>Borges nocturno</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Jun 2009 18:16:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
				<category><![CDATA[das cidades nervosas]]></category>
		<category><![CDATA[Buenos Aires]]></category>
		<category><![CDATA[cidades invisíveis]]></category>
		<category><![CDATA[Jorge Luis Borges]]></category>

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		<description><![CDATA[  Borges adorava caminhar, sobretudo de noite. Dos meus retratos de momento sobre o poeta argentino recupero duas notas sobre esse passeante nocturno. A primeira, roubei-a às memórias do fotógrafo Horácio Coppola que conta que, numa noite chuvosa de 1936, caminhando juntos pelas ruas de Buenos Aires pararam diante de uma poça. Coppola ajustou a [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=1144&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> <a rel="attachment wp-att-1247" href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2009/06/12/borges-nocturno/hcoppola022-2/"><img class="alignnone size-full wp-image-1247" title="hcoppola022" src="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2009/06/hcoppola022.jpg?w=460&#038;h=322" alt="" width="460" height="322" /></a><a rel="attachment wp-att-1241" href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2009/06/12/borges-nocturno/hcoppola10-2/"></a></p>
<p>Borges adorava caminhar, sobretudo de noite. Dos meus <em>retratos de momento </em>sobre o poeta argentino recupero duas notas sobre esse passeante nocturno.</p>
<p>A primeira, roubei-a às memórias do fotógrafo Horácio Coppola que conta que, numa noite chuvosa de 1936, caminhando juntos pelas ruas de Buenos Aires pararam diante de uma poça. Coppola ajustou a câmara e disparou. No espelho de água, estava reflectida a silhueta de uma casa do bairro de Palermo. Quando viu revelada a fotografia do amigo, Borges exclamou: «Isto é Buenos Aires».</p>
<p>A segunda nota reenvia-nos para um outro passeio nocturno, muitos anos depois, na companhia de Maria Kodama e do seu tradutor para inglês, Willis Barnstone. Conta Barnstone, em <em>With Borges on na ordinary evening in Buenos Aires</em>, que na noite de passagem de ano de 1975, depois de um bom jantar regado, com abundante vinho, depararam-se com uma greve de transportes e decidiram acompanhar Kodama a casa. Barnstone recordaria depois esse episódio: «Na semi-obscuridade e através do vento, atravessámos lentamente Buenos Aires. […] As horas passavam e Borges parecia cada vez mais encantado com os ruídos da rua». […] «De repente passou um inesperado carro eleéctrico e Kodama saltou para o seu interior deixando-nos a ambos à deriva». […] «Como regressar a casa se um era cego e o outro um estrangeiro que desconhecia as ruas da cidade?» […] Misteriosamente Borges começou a caminhar, parando de dez em dez passos. Pensei que o fazia porque se julgava perdido. Mas não, toda aquela exaltação era porque me queria falar da sua irmã Norah, da sua infância, dos seus antepassados».</p>
<p>Isto era Borges, um passeante nocturno que jamais se perderia na sua Buenos Aires inventada.<a rel="attachment wp-att-1187" href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2009/06/12/borges-nocturno/hcoppola-costanera/"></a></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/oquecaidosdias.wordpress.com/1144/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/oquecaidosdias.wordpress.com/1144/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/oquecaidosdias.wordpress.com/1144/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/oquecaidosdias.wordpress.com/1144/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/oquecaidosdias.wordpress.com/1144/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/oquecaidosdias.wordpress.com/1144/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/oquecaidosdias.wordpress.com/1144/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/oquecaidosdias.wordpress.com/1144/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/oquecaidosdias.wordpress.com/1144/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/oquecaidosdias.wordpress.com/1144/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/oquecaidosdias.wordpress.com/1144/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/oquecaidosdias.wordpress.com/1144/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/oquecaidosdias.wordpress.com/1144/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/oquecaidosdias.wordpress.com/1144/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=1144&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Os livros dentro dos livros</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Apr 2009 10:42:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
				<category><![CDATA[contra a interpretação]]></category>
		<category><![CDATA[Foucault]]></category>
		<category><![CDATA[Gilles Deleuse]]></category>
		<category><![CDATA[Kafka]]></category>
		<category><![CDATA[leitura]]></category>
		<category><![CDATA[W. G. Sebald]]></category>
		<category><![CDATA[Walter Benjamin]]></category>

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		<description><![CDATA[  Encontro sempre outros livros nos livros que leio. E leio-os procurando escapar às tentações hermenêuticas que sustentam uma certa leitura crítica, profissionalizante, controladora do sentido dos textos através de uma axiomática que procura iluminar o oculto, e que Foucault descrevia como uma «vontade de verdade». Não, não vou por aí, perseguindo a ilusória linha [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=1120&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> </p>
<p><a rel="attachment wp-att-1244" href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2009/04/23/os-livros-dentro-dos-livros-2/o-leitor1/"><img class="alignnone size-full wp-image-1244" title="O leitor1" src="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2009/04/o-leitor1.jpg?w=460&#038;h=309" alt="" width="460" height="309" /></a></p>
<p>Encontro sempre outros livros nos livros que leio. E leio-os procurando escapar às tentações hermenêuticas que sustentam uma certa leitura crítica, profissionalizante, controladora do sentido dos textos através de uma axiomática que procura iluminar o oculto, e que Foucault descrevia como uma «vontade de verdade». Não, não vou por aí, perseguindo a ilusória linha contínua da <em>hybris</em> do novo iluminismo. Prefiro os<em> labirintos </em>benjaminianos embebidos na tinta dos livros.</p>
<p>E, por isso, prefiro os livros onde se recorta a trama da vida, com as suas cesuras que remetem para outras vidas contadas noutros livros. Gosto, então, de livros onde ecoam outros livros, outros autores, outras tramas. Livros que remetem, que aludem, que citam. Livros onde um só fragmento, uma evocação pode levar a outros caminhos que neles se bifurcam. Livros que trazem consigo o estigma dos cruzamentos, da enxertia. Livros que engendram novos livros. Livros de fronteira cuja essência reside na sua travestização genóloga. Livros, ainda, que são por si só uma biblioteca inteira e que, por isso, leio para saber o que os seus autores leram. Livros- labirinto que transformam qualquer limitada biblioteca na interminável biblioteca laboriosamente construída por tradutores, exegetas, anotadores, interpretes, bibliotecários que habitam os contos de Borges. Também por <em>escritores sem qualidades.</em> E outros doentes da literatura obcecados pela vontade de citar, glosar, anotar, comentar textos alheios, exercitando, assim, através da apropriação das palavras alheias toda uma «poética enciclopédica».</p>
<p>Todas as leituras são provisórias, porque nunca relemos um livro da mesma maneira que o lemos da primeira vez. Ou porque relemos cada livro como se estivéssemos a ler um livro que nunca tivesse sido lido. Procuro, assim, escapar à imanência do texto, através de uma hipertextualidade não tecnológica, perscrutando na geografia do acaso de cada texto o ponto e a ponte de passagem para outros textos. «Perder-se numa cidade como se perde numa floresta exige toda uma educação», escreveu Walter Benjamin. Sim, perder-me num livro e reencontrar-me noutro. Não para me confortar, mas para abanar convicções. A leitura, então, como experiência do mundo, mesmo que o livro seja um clássico, até porque, por definição borgeseana «clássico é aquele livro [...] que decidimos ler como se nele tudo fosse [...] tão profundo como o cosmos e sujeito a todas as interpretações». Ou aquele onde, ainda, «surpreende que um rasto já há muito extinto no ar ou na água possa continuar visível, aqui, no papel». Nada está oculto nesta definição de leitura oferecida por W. G. Sebald. Nada está oculto nos livros que me são dados a ler, pois neles também se faz e desfaz, à medida que os leio, &#8211; como escreveu George Bataille &#8211; a «experiência interior que corresponde à necessidade em que me acho em cada momento».</p>
<p>Por isso, porque por contaminação literária também reescrevo os livros que leio, renego aquilo a que Gilles Deleuze chamava de «interpretose» e que continua a assolar a crítica universitária contemporânea. Porque é preciso nunca falhar a ocasião da leitura, o que só acontece se soubermos adentrarmo-nos nos mundos paralelos que se bifurcam nos livros. Não em todos, claro, apenas naqueles que escolhemos como quem escolhe um bem precioso. Esses são os livros que leio e sobre os quais, numa fulguração momentânea, até mesmo Kafka, contrariando todos os seus intérpretes futuros, escreveu: «atravessando as palavras há restos de luz».</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/oquecaidosdias.wordpress.com/1120/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/oquecaidosdias.wordpress.com/1120/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/oquecaidosdias.wordpress.com/1120/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/oquecaidosdias.wordpress.com/1120/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/oquecaidosdias.wordpress.com/1120/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/oquecaidosdias.wordpress.com/1120/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/oquecaidosdias.wordpress.com/1120/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/oquecaidosdias.wordpress.com/1120/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/oquecaidosdias.wordpress.com/1120/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/oquecaidosdias.wordpress.com/1120/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/oquecaidosdias.wordpress.com/1120/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/oquecaidosdias.wordpress.com/1120/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/oquecaidosdias.wordpress.com/1120/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/oquecaidosdias.wordpress.com/1120/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=1120&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Isto é um homem</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Feb 2009 21:27:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
				<category><![CDATA[analíticas da actualidade]]></category>

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		<description><![CDATA[Contrariando o pedido que lhe fora endereçado por um grupo pró-palestiano para não ir a Israel receber o Jerusalem Prize, o escritor japonês Haruki Murakami decidiu ir porque queria ver «com os seus próprios olhos». E foi e viu um muro alto e grande serpenteando na paisagem bíblica, dividindo, espartilhando ruas e estradas, quintais, hortas, vizinhanças, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=1029&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-1054" title="palestine" src="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2009/02/palestine.jpg?w=460&#038;h=375" alt="palestine" width="460" height="375" /></p>
<p>Contrariando o pedido que lhe fora endereçado por um grupo pró-palestiano para não ir a Israel receber o <em>Jerusalem Prize</em>, o escritor japonês Haruki Murakami decidiu ir porque queria ver «com os seus próprios olhos». E foi e viu um muro alto e grande serpenteando na paisagem bíblica, dividindo, espartilhando ruas e estradas, quintais, hortas, vizinhanças, incendiando ódios na «terra prometida».<span style="font-size:11pt;line-height:115%;font-family:&quot;"> </span>E, então, disse que «se há um muro alto e grande e um ovo que se parte contra ele, não interessa o quão certo está o muro ou quão errado está o ovo, eu ficarei do lado do ovo. Porquê? Porque cada um de nós é um ovo, uma alma única, encerrada num ovo frágil. Cada um de nós confronta-se com um grande muro. O grande muro é o sistema. (&#8230;) Somos todos seres humanos, indivíduos, ovos frágeis».</p>
<p>Os palestinianos, menos que isso, diz-me Fuad, um amigo palestiniano que conheci um dia em Aman: «Em Israel, os palestinianos agora são vistos como menos que humanos». Almas quebradas contra um muro «demasiado grande, demasiado escuro, demasiado frio», erguido por israelitas com idade para se lembrarem do que significou na história enlouquecida do século XX a palavra «<em>undermenchen</em>». Foi esta expressão &#8211; <em>menos que humano</em> - que antecipou os campos de extermínio nazis, a chave que abriu as câmaras de gás para milhões de judeus e que, agora, estes, que mais do que qualquer outro povo a deviam calar, pronunciam, indiferentes ao sofrimento, à dor que infligem aos seus vizinhos.</p>
<p>A muralha de ódio que vai rasgando a paisagem bíblica da Palestina, contra a qual Murakami viu partirem-se os ovos frágeis dos palestinianos, é justificada por uma retórica de auto-defesa israelita; a mesma retórica que justifica os bombardeamentos indiscriminados de populações indefesas do outro lado do muro. Ou será que os israelitas acreditam que ali, todos, mulheres e crianças inclusive, se encontram armados? É que se assim não for, então, já só os pensam como <em>menos que humanos</em>. E é por aí, pela insensibilidade, que começa o extermínio. Primeiro, «um muro demasiado grande, demasiado escuro, demasiado frio». E depois, no lado de lá do muro, uma paisagem de ruínas sem fim, paredes calcinadas, sedimentos de morte e dor espalhados sobre aquele pedaço de deserto abandonado por Deus.<em> </em></p>
<p>Por isso, como Murakami, esquivo-me às codificações racionais de uma guerra assimétrica e envolvo-me emocionalmente no sofrimento palestiniano. Por isso, esquivo-me ao juízo sobre se o que está certo ou errado é o muro ou os ovos que se quebram contra ele. É que, conhecendo Fuad e escutando as suas palavras, umas vezes gritadas outras vezes apenas balbuciadas, só poderei dizer, evocando Primo Levi, também ele «uma alma única, encerrada num ovo frágil», <em>isto é um homem.</em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/oquecaidosdias.wordpress.com/1029/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/oquecaidosdias.wordpress.com/1029/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/oquecaidosdias.wordpress.com/1029/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/oquecaidosdias.wordpress.com/1029/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/oquecaidosdias.wordpress.com/1029/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/oquecaidosdias.wordpress.com/1029/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/oquecaidosdias.wordpress.com/1029/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/oquecaidosdias.wordpress.com/1029/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/oquecaidosdias.wordpress.com/1029/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/oquecaidosdias.wordpress.com/1029/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/oquecaidosdias.wordpress.com/1029/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/oquecaidosdias.wordpress.com/1029/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/oquecaidosdias.wordpress.com/1029/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/oquecaidosdias.wordpress.com/1029/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=1029&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Da natureza do jornalismo</title>
		<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2009/02/21/stieg-larsson/</link>
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		<pubDate>Sat, 21 Feb 2009 17:42:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
				<category><![CDATA[analíticas da actualidade]]></category>

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		<description><![CDATA[  Longe vão os dias em que Karl Kraus, confrontado com um jornalismo que tendia a abafar tudo o que de novo ia surgindo, escreveu Os últimos dias da humanidade onde leva aos limites a representação do mal absoluto da guerra, apresentando-a como fantasmagoria tecnológica e discursiva e, ao mesmo tempo, denuncia as condições de inteligibilidade do presente [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=1000&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> <img class="alignnone size-full wp-image-1014" title="journalism1" src="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2009/02/journalism1.jpg?w=460&#038;h=345" alt="journalism1" width="460" height="345" /></p>
<p>Longe vão os dias em que Karl Kraus, confrontado com um jornalismo que tendia a abafar tudo o que de novo ia surgindo, escreveu <em>Os últimos dias da humanidade</em> onde leva aos limites a representação do mal absoluto da guerra, apresentando-a como fantasmagoria tecnológica e discursiva e, ao mesmo tempo, denuncia as condições de inteligibilidade do presente produzidas pela imprensa como fazendo parte da ordem da morte que alegadamente descreviam. Ao tornar visível essa ignóbil função de tornar invisível o sofrimento dos seres humanos, Kraus encenava, então, o moderno mercado da violência que tornou a humanidade cúmplice dos<em> paradoxdos terminais</em> da modernidade. Por esses mesmos dias, o mesmo Kraus, reportando-se ao jornalismo, dizia ironicamente: «Eu quero piorá-lo, quero colocar barreiras às suas infames intenções sob capa de pretensões espirituais e considerar mais perigosa a imprensa estilisticamente melhor».</p>
<p>Tinha razão Kraus em criticar um jornalismo sem tonalidade política, logo incapaz de afrontar o turbilhão da história e sonhar com outro jornalismo que acabaria submergido historicamente. Um jornalismo que se revelaria incapaz de exercer um escrutínio cerrado sobre a velha ordem económico-financeiro e que foi, depois, incapaz de prever a chegada, a velocidade e a verdadeira dimensão da actual crise financeira que, segundo a catastrofista previsão de Jacques Attali, estará <em>a arrastar o mundo para uma espécie Weimar global.</em> Uma assustadora previsão, se nos recordarmos que o nazismo resultou, precisamente, do colapso da República de Weimar. E tanto mais assustadora, porque convergente com a opinião de prestigiados economistas que, nos últimos dias, reforçaram a percepção de que não está a ser feito tudo o que devia ser feito: Martin Wolf prevê, taxativamente, no Financial Times, que Obama «não conseguirá salvar os bancos»; e Nouriel Roubini, o único economista que previu com antecedência a crise, partindo da constatação de que «o sistema bancário norte-americano está à beira da insolvência», propõe a nacionalização temporária de todos os bancos, à semelhança do que fez a Suécia em 1992.</p>
<p>Antecipar, escrutinar e exibir &#8211; como fazia o jornalista Karl Kraus na revista <em>Die Fackel -</em> tudo o que é mau e podre nesta velha ordem financeira, eis o que se deve também exigir ao jornalismo dos dias que correm. Um jornalismo que na sua essência recorra a procedimentos de actualidade para não se confundir com a mera imanência do quotidiano.</p>
<p>Disso me vou dando conta, à medida em que me vou adentrando nas páginas alucinantes da trilogia <em>Millenium</em> (<em>Os homens que odeiam as louras, </em>Oceanos<em>;</em> <em>A rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo, </em>Oceanos; e <em>A rainha no palácio das correntes de ar</em>, ainda não publicado em Portugal<span style="font-size:x-small;font-family:Verdana;">)</span><em>,</em> do malogrado escritor sueco <a href="http://www.stieglarsson.com/">Stieg Larsson </a>(1954-2004) - ex-director da <em><a href="http://expo.se/about-expo.html">Expo</a></em>, uma revista especializada em reportagens sobre grupúsculos de extrema direita, na denúncia do racismo escandinavo e na investigação à corrupção e traficância no mundo empresarial &#8211; e vou caminhando pela noite gelada de Estocolmo com a dupla Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander - ele um jornalista de investigação e ela uma <em>hacker</em> com o dom da ubiquidade cibernética<em>,</em> tatuada e perfurada com <em>piercings</em> e atravessada por paranóias, uma criatura entre Lara Croft e a Pipi das Meias Altas -, que vai no encalço de banqueiros e empresários que especulam impunemente e que, por isso, devem  ser escrutinados com o mesmo empenho e ausência de misericórdia com que os jornalistas políticos vigiam o menor passo em falso de ministros e autarcas. Também aqui, neste <em>thriller</em> nórdico, a realidade parece ter imitado a ficção, como comprova a actualidade noticiosa sobre bancos e banqueiros portugueses.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/oquecaidosdias.wordpress.com/1000/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/oquecaidosdias.wordpress.com/1000/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/oquecaidosdias.wordpress.com/1000/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/oquecaidosdias.wordpress.com/1000/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/oquecaidosdias.wordpress.com/1000/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/oquecaidosdias.wordpress.com/1000/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/oquecaidosdias.wordpress.com/1000/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/oquecaidosdias.wordpress.com/1000/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/oquecaidosdias.wordpress.com/1000/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/oquecaidosdias.wordpress.com/1000/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/oquecaidosdias.wordpress.com/1000/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/oquecaidosdias.wordpress.com/1000/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/oquecaidosdias.wordpress.com/1000/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/oquecaidosdias.wordpress.com/1000/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=1000&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O senhor Kraus ortónimo</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Feb 2009 23:33:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
				<category><![CDATA[analíticas da actualidade]]></category>

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		<description><![CDATA[Não podendo Kraus, o verdadeiro, ser declarado shandiano - seja porque as insuportáveis 525 gramas de peso de Os últimos dias da humanidade não passariam, por certo, no teste da máquina de pesar livros de Walter Benjamin, seja porque as 209 cenas dessa peça de teatro são de uma densidade absoluta, seja, ainda, por ser um homem de grande severidade e por praticar uma [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=991&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-993" title="kraus1" src="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2009/02/kraus1.jpg?w=460" alt="kraus1"   /></p>
<p>Não podendo Kraus, o verdadeiro, ser declarado <em>shandiano </em><em>-</em> seja porque as insuportáveis 525 gramas de peso de <em>Os últimos dias da humanidade</em> não passariam, por certo, no teste da máquina de pesar livros de Walter Benjamin, seja porque as 209 cenas dessa peça de teatro são de uma densidade absoluta, seja, ainda, por ser um homem de grande severidade e por praticar uma disciplina absoluta, seja, finalmente, porque nesse grosso volume <em>terminal</em> nada é excêntrico, antes tudo participa num propósito de exibição e denúncia dos estados inaceitáveis do mundo -, ainda assim, talvez, por se ter cruzado nas ruas de Viena com algum dos 27 membros da sociedade secreta que por volta do mês de Março de 1925 ali acorreram  para uma festa <em>shand</em>y, também este Kraus ortónimo, embora de maneira distinta da sociedade <em>shandiana</em>, foi um<em> homem sem qualidades</em>, um estranho de passagem entre duas guerras, um escritor secreto que enfrentou os <em>paradoxos terminais</em> da modernidade e que, às vezes, servindo-se de uma ácida ironia <em>shandiana</em> dizia que «o jornalismo come o pensamento» e que «os jornais têm mais ou menos a mesma relação com a vida que a cartomante com a metafísica».</p>
<p>Se tudo resto afasta o crítico apocalíptico Karl Kraus daqueles escritores <em>shandys</em> guiados por princípios fúteis e vagos, mas ao mesmo tempo em permanente conspiração, pelo menos com eles partilha o estranhamento do mundo. Talvez, por isso, o seu duplo, se tenha retirado, sem mala, para o Bairro <em>portátil</em> de Gonçalo M. Tavares, onde, agora, travestido de <em>Senhor Kraus</em> heterónimo reaparece rejuvenescido, volúvel, praticando um jornalismo de um humor delirante, desconcertante, <em>shandiano</em>, sem outro propósito que não seja o de apanhar o dia de modo expedito.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/oquecaidosdias.wordpress.com/991/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/oquecaidosdias.wordpress.com/991/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/oquecaidosdias.wordpress.com/991/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/oquecaidosdias.wordpress.com/991/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/oquecaidosdias.wordpress.com/991/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/oquecaidosdias.wordpress.com/991/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/oquecaidosdias.wordpress.com/991/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/oquecaidosdias.wordpress.com/991/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/oquecaidosdias.wordpress.com/991/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/oquecaidosdias.wordpress.com/991/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/oquecaidosdias.wordpress.com/991/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/oquecaidosdias.wordpress.com/991/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/oquecaidosdias.wordpress.com/991/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/oquecaidosdias.wordpress.com/991/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=991&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">João Ventura</media:title>
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		<title>No Bairro portátil do senhor Tavares (VII): um cacaniano aposentado</title>
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		<pubDate>Sun, 15 Feb 2009 17:24:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
				<category><![CDATA[contra a interpretação]]></category>

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		<description><![CDATA[«O Senhor Kraus saiu do jornal bem-disposto. Sabia que nos tempos que corriam (para trás?, para o lado?) a única forma objectiva de comentar a política era a sátira». O Senhor Kraus é uma personagem vagamente shandiana. E digo vagamente porque, não obstante a funda ironia e a ácida insolência que caracteriza o seu estilo jornalístico, além da, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=953&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-956" title="kkraus" src="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2009/02/kkraus.jpg?w=460" alt="kkraus"   /></p>
<p>«O Senhor Kraus saiu do jornal bem-disposto. Sabia que nos tempos que corriam (para trás?, para o lado?) a única forma objectiva de comentar a política era a sátira». O Senhor Kraus é uma personagem vagamente <em>shandiana. </em>E digo <em>vagamente</em> porque, não obstante a funda ironia e a ácida insolência que caracteriza o seu estilo jornalístico, além da, claro está, sustentável leveza do 5º livrinho deste Bairro portátil que vou revisitanto, não consigo fazer descolar a sua figura da seu severo homónimo Karl Kraus que numa Viena em <em>apocalipse alegre</em> escrevia e publicava sozinho a revista  <em>Die  Fackel, </em>com tal escrupulosidade que não só nunca lhe escapava a denuncia de tudo o que era podre e falso como nunca falhava, sequer, a colocação da vírgula menos pertinente.</p>
<p>O Senhor Kraus mimetiza o visionário nihilista e impiedoso crítico seu homónimo que &#8211; como escreveu Roberto Calasso, em <em>Os quarenta e nove degraus</em> -,  tendo antecipado que «se encontrava numa época que esvazia a noção discursiva e teatral de adversário, estendendo-a a tudo, dissipando-a em névoa, tornando qualquer um facilmente inimigo de si mesmo», <em>se retirou para a vida privada</em> do Bairro de Gonçalo M. Tavares. Ao contrário do seu duplo <em>cacaniano</em> que achava que «o jornalismo <em>comia</em> o pensamento», o Senhor Kraus é um jornalista <em>shandy </em>que apanha o acontecimento político de modo expedito, sem estar preocupado com qualquer refinamento estilístico.</p>
<p>Antecipando as causas da crise por vir, o Senhor Kraus apanhou de cernelha um acontecimento <em>raro</em>: «Uma enorme comitiva de economistas entrou nos aposentos centrais. Traziam um relatório gigante. Era o diagnóstico; o estado da economia do país ali estava, ao pormenor. Três meses de trabalho envolvendo mais de 32 mil economistas. Bem remunerados, mas era merecido: o relatório tinha mais de seiscentas páginas. E um índice. Foi no índice que o Chefe pegou». Às vezes, a realidade imita a ficção.</p>
<p>Afinal, a leveza destes livrinhos <em>portáteis</em> só o será aparentemente. Diria, antes, que são de uma <em>insustentável leveza</em> em matéria de expressão literária breve e despretenciosa para apanhar o quotidiano sem estar a coberto de qualquer propósito moralizador.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/oquecaidosdias.wordpress.com/953/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/oquecaidosdias.wordpress.com/953/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/oquecaidosdias.wordpress.com/953/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/oquecaidosdias.wordpress.com/953/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/oquecaidosdias.wordpress.com/953/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/oquecaidosdias.wordpress.com/953/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/oquecaidosdias.wordpress.com/953/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/oquecaidosdias.wordpress.com/953/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/oquecaidosdias.wordpress.com/953/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/oquecaidosdias.wordpress.com/953/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/oquecaidosdias.wordpress.com/953/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/oquecaidosdias.wordpress.com/953/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/oquecaidosdias.wordpress.com/953/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/oquecaidosdias.wordpress.com/953/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=953&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">João Ventura</media:title>
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			<media:title type="html">kkraus</media:title>
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	</item>
		<item>
		<title>No Bairro portátil do senhor Tavares (VI): no café com Calvino</title>
		<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2009/02/12/%c2%abno-bairro%c2%bb-vi-a-mesa-com-calvino/</link>
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		<pubDate>Thu, 12 Feb 2009 22:04:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
				<category><![CDATA[contra a interpretação]]></category>

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		<description><![CDATA[O Senhor Calvino é uma personagem que gosta de dar longos passeios e coloca constantemente desafios existenciais a si próprio, tais como transportar pelo bairro uma barra metálica paralela ao solo, ou levar 10 kg de terra de um local para outro, utilizando uma colher de chá -  para treinar a paciência. O Senhor Calvino esteve [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=889&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div><img class="alignnone size-full wp-image-906" title="calvino3" src="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2009/02/calvino3.jpg?w=460" alt="calvino3"   /></div>
<div>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">O Senhor Calvino é uma personagem que gosta de dar longos passeios e coloca constantemente desafios existenciais a si próprio, tais como transportar pelo bairro uma barra metálica paralela ao solo, ou levar 10 kg de terra de um local para outro, utilizando uma colher de chá -  para treinar a paciência. O Senhor Calvino esteve no Café do TEMPO, no Sábado passado - onde a Gaveta &#8211; e o Sandro Junqueira, um jovem talentoso de Portimão, fantasiado de Karl Kraus, esse escritor severo que viveu numa Viena à beira do <em>apocalipse alegre</em>  - montou um radioso Bairro portátil para os curiosos que se escaparam no final da cruel versão teatral de <em>Jerusalém,</em> recriado por João Brites no auditório situado na cave do teatro -, e vimo-lo atirar-se do alto de mais de trinta andares em perseguição dos seus sapatos e gravata que alguém atirara pela janela: «Ainda no ar alcança os sapatos. Primeiro, o direito: calça-o; depois, o esquerdo. No ar enquanto cai, tenta encontrar a melhor posição para apertar os atacadores. Com o sapato esquerdo falha uma vez, mas volta a repetir, e consegue. Olha para baixo, já se vê o chão. Antes, porém, a gravata; Calvino está de cabeça para baixo e com um puxão brusco a sua mão direita apanha-a no ar e, depois, com os seus dedos apressados, mas certeiros, dá as voltas necessários para o nó: a gravata está posta. Os sapatos, olha de novo para eles: os atacadores bem apertados; dá o último jeito no nó da gravata, bem a tempo, é o momento: chega ao chão, impecável». </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">O Senhor Calvino sentou-se, depois, tranquilamente,  à minha mesa e, à falta de absinto - essa bebida esverdeada e opiácea que parece também ela ter sido desenhada por Gonçalo Tavares, ele próprio uma espécie de escritor-funâmbulo, umas vezes, em equilíbrio sobre os abismos da realidade dos seus livros negros, e outras vezes, planando em permanente «voo imaginativo» sobre um bairro portátil» para onde se escapa como se fosse, também ele, um <em>senhor</em> desenhado posto ali em andamento para nos fazer esquecer a realidade (e que, por certo, o volúvel Senhor Henri -, talvez o mais <em>shandiano</em> de todos os habitantes do bairro, bastante afeiçoado ao absinto e muito entendido nestas coisas de estímulos, fontes de inspiração e coisas assim &#8211; se por ali andasse, não deixaria de nos servir, ) - bebemos um <em>whisky. </em></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">E, por um tempo breve, mesmo sem absinto para misturar com realidade, mas com os deliciosos livrinhos gráfico-literários inventados por Gonçalo M. Tavares ao fundo, numa biblioteca <em>transportável, </em>obtivemos uma realidade melhor depois de, momentos antes, termos andado à deriva entre cachos esbogoados de uma vindima longínqua, esqueletos de uvas amassadas lembrando ossaturas humanas, à semelhança de uma história normalizada do horror. Bipolaridades. Ou não fosse Gonçalo M. Tavares, «um autor que &#8211; como diz Enrique Vila-Matas &#8211; à segunda-feira se confunde com Michaux, à quinta com Thomas Mann, assemelhando-se todos os domingos a Fernando Pessoa.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0;"><span style="font-family:&quot;"><span style="font-size:small;">[para uma descida aos <em>malstroms</em> tavarianos ler: <a href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2007/04/26/ensaio-sobre-a-loucura/"><em>Ensaio sobre a loucura</em> </a>e<em> <a href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/01/14/da-banalidade-do-mal/">Da</a></em><a href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/01/14/da-banalidade-do-mal/"> <em>banalidade do mal</em></a>]</span></span></p>
</div>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/oquecaidosdias.wordpress.com/889/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/oquecaidosdias.wordpress.com/889/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/oquecaidosdias.wordpress.com/889/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/oquecaidosdias.wordpress.com/889/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/oquecaidosdias.wordpress.com/889/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/oquecaidosdias.wordpress.com/889/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/oquecaidosdias.wordpress.com/889/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/oquecaidosdias.wordpress.com/889/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/oquecaidosdias.wordpress.com/889/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/oquecaidosdias.wordpress.com/889/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/oquecaidosdias.wordpress.com/889/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/oquecaidosdias.wordpress.com/889/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/oquecaidosdias.wordpress.com/889/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/oquecaidosdias.wordpress.com/889/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=889&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Teatro da crueldade</title>
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		<pubDate>Sat, 07 Feb 2009 18:55:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
				<category><![CDATA[contra a interpretação]]></category>

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		<description><![CDATA[  Talvez a única escrita possível depois de Auschwitz seja aquela cujas palavras se projectam naqueles montes de engaço que cobram o palco, soltando um cheiro acre, intenso, que se vai adensando sobre as primeiras filas do auditório &#8211; e que, logo à noite, mais do que embriagar os espectadores, assaltará consciências -, numa encenação que toma como ponto de partida [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=860&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> </p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-1140" title="jerusalem" src="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2009/02/jerusalem4.jpg?w=460" alt="jerusalem"   /></p>
<p>Talvez a única escrita possível depois de Auschwitz seja aquela cujas palavras se projectam naqueles montes de engaço que cobram o palco, soltando um cheiro acre, intenso, que se vai adensando sobre as primeiras filas do auditório &#8211; e que, logo à noite, mais do que embriagar os espectadores, assaltará consciências -, numa encenação que toma como ponto de partida o espaço frio, concentracionário, do hospício Georg Rosenberg, recriado na encenação de João Brites do romance-ensaio de Gonçalo M. Tavares, <em><a href="http://oquecaidosdias.wordpress.com/2007/04/26/ensaio-sobre-a-loucura/">Jerusalém</a>. </em>Matéria orgânica em fermentação, destroços de uvas amassadas, cachos esbagoados de uma vindima longínqua. Esqueletos de uvas amontoados lembrando ossaturas humanas à semelhança de uma história do horror do século XX cujos cenários de extermínio, como Buchenwald, um protagonista desta narrativa haverá de lembrar. «É como se a obra fosse uma escultura. Nós andámos à volta da escultura e escolhemos um ângulo: a questão do horror que está por detrás da normalidade deste tempo», diz-me João Brites.</p>
<p>Assisto ao ensaio antes do espectáculo de logo à noite no TEMPO. Sete personagens errando pelas das ruas de uma cidade sem nome, habitada por actores e espectadores - que entram pela mesma porta, encontrando-se parte da plateia no palco, virada para uma parede de tijolo -, em que a noção de presente é o que une a ficção à realidade. Uma história de deportação e enclausuramento. Deportação para um hospício. Enclausuramento no medo. Por força da encenação, actores e espectadores prisioneiros da crueldade ou da misericódia do mundo. Antecipação das aparições que povoarão a mente e o corpo da esquizofrénica Mylia em busca alucinada da existência de Deus, enquanto um médico, Theodor Busbeck, procura desenhar um gráfico sobre a regularidade do horror na História, na tentativa de diagnosticar a sanidade dos homens ou a sua insanidade definitiva. Personagens amarradas a diferentes registos, confrontando consciências, evocações. Um cão atravessando o palco não sei se para nos fazer sentir mais humanos ou loucos.</p>
<p>Uma versão experimentalista e socialmente empenhada da parábola expressionista de Gonçalo M. Tavares sobre a loucura da normalidade de todos os dias, na esteira de um teatro que está ali não para nos confortar, muito menos para nos divertir, mas para abanar as nossas conciências arrastadas sem remissão pelo vórtice da História que, de vez em quando, parece enlouquecer, como aconteceu com o nazismo, e que, às vezes, nos atrai para um teatro da crueldade. É que &#8211; como disse Walter Benjamin - «a história é uma constelação de perigos» e «diante do inimigo, se ele vence, mesmos os mortos não estarão em segurança. E esse inimigo não tem feito mais do que vencer». Esta a lição essencial de Gonçalo M. Tavares aqui <em>remontada</em> por João Brites.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/oquecaidosdias.wordpress.com/860/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/oquecaidosdias.wordpress.com/860/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/oquecaidosdias.wordpress.com/860/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/oquecaidosdias.wordpress.com/860/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/oquecaidosdias.wordpress.com/860/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/oquecaidosdias.wordpress.com/860/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/oquecaidosdias.wordpress.com/860/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/oquecaidosdias.wordpress.com/860/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/oquecaidosdias.wordpress.com/860/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/oquecaidosdias.wordpress.com/860/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/oquecaidosdias.wordpress.com/860/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/oquecaidosdias.wordpress.com/860/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/oquecaidosdias.wordpress.com/860/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/oquecaidosdias.wordpress.com/860/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=860&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
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		<title>No Bairro portátil do senhor Tavares (V): literatura volúvel</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Feb 2009 15:24:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
				<category><![CDATA[contra a interpretação]]></category>

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		<description><![CDATA[Diz Enrique Vila-Matas que Gonçalo M. Tavares «vai criando como se estivesse sempre num permanente voo imaginativo: um bairro portátil, uma espécie de Chiado literário onde compram pão e tomam o aperativo uma série de senhores muito curiosos, cada um habitante de um livro breve e próprio: o senhor Juarroz, o senhor Calvino, o senhor [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=844&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;margin:0 0 10pt;"><span style="font-family:Calibri;"><span style="font-size:12pt;line-height:115%;"><img class="alignnone size-full wp-image-848" title="o-senhor-breton" src="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2009/02/o-senhor-breton.jpg?w=460" alt="o-senhor-breton"   /></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0 0 10pt;"><span><span style="font-size:small;">Diz Enrique Vila-Matas que <span style="color:#333333;">Gonçalo M. Tavares «vai criando como se estivesse sempre num permanente voo imaginativo: um bairro portátil, uma espécie de Chiado literário onde compram pão e tomam o aperativo uma série de senhores muito curiosos, cada um habitante de um livro breve e próprio: o senhor Juarroz, o senhor Calvino, o senhor Valéry, o senhor Brecht, o senhor Kraus». São todos eles inquilinos de pequenos </span>mundos ficcionais, lúdicos, irónicos, engenhosos e bem-humorados, em cujas ruas e pracetas se entrelaçam o real e o imaginário, sem que possamos distinguir entre o fora e o dentro, o direito e o seu anverso, desfiados, livrinho a livrinho, como historietas avulsas a qualquer enredo, através das quais se vai tecendo paulatinamente a genealogia literária do autor.   Apesar da pluralidade de propostas e visões que fazem a excentricidade do Bairro, existe nele uma harmonia que deve mais à possibilidade de excitar o leitor com múltiplas visões do mundo do que à hipotética partilha das preocupações e dos programas de escrita dos seus inquilinos. Um bairro em crescimento acelerado<em>  «que</em> cada vez mais me parece ser a personagem principal [...]. Uma espécie de história da literatura em ficção [...]. Um projecto interminável», admite Gonçalo M. Tavares. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0 0 10pt;"><span><span style="font-size:small;">Desses inquilinos, o mais recente, acabado de chegar a esse Bairro ficcional que poderia integrar a geografia improvável de uma qualquer <em>cidade invisível</em> de Italo Calvino, «feita só de excepções, impedimentos, contradições, incongruências, contra-sensos», mas ao mesmo tempo «contendo tudo o que corresponde à norma», é <em>O Senhor Breton</em> que mimetiza &#8211; numa auto-entrevista formulada em 10 perguntas que «complicam a realidade» &#8211; o escritor surrealista André Breton, trazido, talvez, ao Bairro por um qualquer «acaso objectivo» através do qual o <em>arquitecto</em> invisível Gonçalo M. Tavares vai manipulando a realidade inventada para melhor a observar. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0 0 10pt;"><span><span style="font-size:small;">Munido de um gravador, frente a «um enorme espelho na sala: a janela com a velocidade ideal», O <em>Senhor Breton</em> auto-entrevista-se, procurando respostas para algumas questões caras aos enunciados surrealistas, sobretudo aquelas que se apresentaram nos manifestos que André Breton assinou. Questionando os modos de expressão da realidade, as relações entre a estética e a filosofia ou os limites representacionais da linguagem,  O<em> Senhor Breton</em> percorre as mesmas <em>passages</em> que Breton, com o distanciamento ficcional a permitir ao duplo uma consciência aguda dos limites que o seu homónimo pretendia estilhaçar.  </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0 0 10pt;"><span><span style="font-size:small;">Este livrinho <em>portátil,</em> não só pela sua leveza mas porque nele se descortinam «certos traços que eram considerados tipicamente <em>shandys</em>: [i. é, volúveis] &#8230; ausência de propósitos [...] tensa convivência com a figura do duplo [...] e o culto da arte da insolência», logo capaz de figurar numa qualquer <em>História Abreviada da Literatura Portátil,</em> revista por Enrique Vila-Matas - porque passaria no teste concebido por Walter Benjamin, esse escritor-filósofo, <em>estranho de passagem,</em> cuja tendência para miniaturiziar a realidade o levou a inventar «essa máquina risonha de pesar livros que permitia detectar, com precisão absoluta, quais as obras literárias insuportáveis e, por isso, embora tentem dissimulá-lo, intransportáveis» -, é mais um singular exercício de estilo que se alimenta de poéticas concretas e prévias à sua construção e que escapa a qualquer tentativa de interpretação. De momento, são nove os livrinhos <em>portáteis</em> do Senhor Gonçalo, mas os que aí vêm já têm a mala, seguramente <em>duchampeana</em>, preparada. </span></span></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/oquecaidosdias.wordpress.com/844/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/oquecaidosdias.wordpress.com/844/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/oquecaidosdias.wordpress.com/844/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/oquecaidosdias.wordpress.com/844/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/oquecaidosdias.wordpress.com/844/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/oquecaidosdias.wordpress.com/844/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/oquecaidosdias.wordpress.com/844/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/oquecaidosdias.wordpress.com/844/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/oquecaidosdias.wordpress.com/844/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/oquecaidosdias.wordpress.com/844/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/oquecaidosdias.wordpress.com/844/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/oquecaidosdias.wordpress.com/844/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/oquecaidosdias.wordpress.com/844/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/oquecaidosdias.wordpress.com/844/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=844&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
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		<title>Metapolítica da avaliação</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Dec 2008 00:38:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
				<category><![CDATA[analíticas da actualidade]]></category>

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		<description><![CDATA[  O meu post anterior sobre a natureza instrumental da avaliação dos professores suscita-me, entretanto, outra breve reflexão, ainda decorrente das posições postas em confronto no aludido debate televisivo. É que através desse sofisticado sistema de medições, regras e tabelas que querem impor aos professores e à escola, utilizadas não tanto como processo mas como caução científica visando [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=795&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> </p>
<p><span style="font-family:Verdana;"><a href="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/12/professores.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-812" title="professores" src="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/12/professores.jpg?w=460&#038;h=306" alt="professores" width="460" height="306" /></a></span></p>
<p><span style="font-family:Verdana;">O meu <em>post</em> anterior sobre a natureza instrumental da avaliação dos professores suscita-me, entretanto, outra breve reflexão, ainda decorrente das posições postas em confronto no aludido debate televisivo. É que através desse sofisticado sistema de medições, regras e tabelas que querem impor aos professores e à escola, utilizadas não tanto como processo mas como caução científica visando a denegação da dimensão ideológica da avaliação, o que se verifica mais não é do que a denegação da política, entendida, como defende Jacques Rancière, como o embate entre aqueles que querem ser ouvidos e reconhecidos como uma parte legítima na discussão e as <em>nomenklaturas</em> do governo, dos tecnocratas da educação e dos sindicatos. </span></p>
<p><span style="font-family:Verdana;">E de que embate se trata, então, aqui? Desde logo, do embate entre a visão instrumental e manipuladora partilhada pelo</span><span style="font-family:Verdana;"> governo e tecnocratas da educação e os sindicatos, cujas ressonâncias retóricas se fizeram escutar agudamente no início do referido debate televisivo. Uns procurando neutralizar a dimensão política da <em>revolta</em> da classe inteira dos professores<em>.</em> E os outros procurando apropriar-se dessa revolta, apresentando-a - como autorizaria o filósofo esloveno Slavoj Zizek (<em>Elogio da intolerância,</em> Relógio d´Água) - como uma «condensação metafórica da oposição global contra aqueles que detêm o poder», de tal maneira que o processo reivindicativo em desenvolvimento já não se refere simplesmente à reclamação de um outro modelo de avaliação, mas envolve a dimensão da exigência da demissão dos responsáveis pela política educativa do governo e a revogação de todo o quadro legal que enquadra a avaliação. Daí que os sindicatos, para não perderem o controle dos professores &#8211; que, talvez, comecem a partir de agora a sentir-se um tanto ou quanto desenganados, porque, entretanto, o governo satisfez algumas das suas reclamações na tentativa de os privar dos objectivos do seu protesto &#8211; avancem, agora, com novas reivindicações que não estavam na agenda que conduziu à revolta.</span></p>
<p><span style="font-family:Verdana;">E, depois, o outro embate, menos ressonante em termos mediáticos mas mais <em>sentido</em> no interior das escolas, </span><span style="font-family:Verdana;">entre o aparelho dos <em>especialistas educacionais</em> do governo<em> </em>cujo objectivo último é a transformação da <em>administração da educação</em> centrada nas pessoas numa <em>administração das coisas</em> da educação no interior de uma ordem racional apoiada num modelo procedimental instrumental economicista e os professores <em>desalinhados</em> que reclamam que as suas vozes sejam reconhecidas como fazendo parte de uma <em>esfera pública</em> aberta a outras narrativas - que não as mesmas de sempre, isto é, as dos governantes <em>versus</em> partidos da oposição e sindicatos -</span><span style="font-family:Verdana;"> onde se faça ouvir o discurso dos professores <em>excluídos </em>e<em> </em>se possa, finalmente, processar a negociação e o compromisso estratégico entre as partes.</span><span style="font-family:Verdana;"> </span></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/oquecaidosdias.wordpress.com/795/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/oquecaidosdias.wordpress.com/795/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/oquecaidosdias.wordpress.com/795/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/oquecaidosdias.wordpress.com/795/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/oquecaidosdias.wordpress.com/795/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/oquecaidosdias.wordpress.com/795/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/oquecaidosdias.wordpress.com/795/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/oquecaidosdias.wordpress.com/795/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/oquecaidosdias.wordpress.com/795/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/oquecaidosdias.wordpress.com/795/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/oquecaidosdias.wordpress.com/795/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/oquecaidosdias.wordpress.com/795/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/oquecaidosdias.wordpress.com/795/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/oquecaidosdias.wordpress.com/795/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=795&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">João Ventura</media:title>
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			<media:title type="html">professores</media:title>
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	</item>
		<item>
		<title>De que falamos quando falamos de avaliação</title>
		<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/11/26/de-que-falamos-quando-falamos-de-avaliacao/</link>
		<comments>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/11/26/de-que-falamos-quando-falamos-de-avaliacao/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 26 Nov 2008 18:47:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
				<category><![CDATA[analíticas da actualidade]]></category>

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		<description><![CDATA[  O debate televisivo sobre a avaliação dos professores a que assistimos ontem no programa Prós e Contras suscita-me a seguinte reflexão. Do lado dos Prós, na circunstância, o representante do Estado e a uma dita especialista, a defesa da avaliação é sustentada do ponto de vista da necessidade de estabelecer a diferenciação entre os avaliados, premiando [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=780&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> <a href="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/12/labirinto.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-814" title="labirinto" src="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/12/labirinto.jpg?w=460&#038;h=432" alt="labirinto" width="460" height="432" /></a></p>
<p><span style="font-family:Verdana;">O debate televisivo<em> </em>sobre a avaliação dos professores a que assistimos ontem no programa <em>Prós e</em> <em>Contras</em> suscita-me a seguinte reflexão. Do lado dos <em>Prós</em>, na circunstância, o representante do Estado e a uma dita <em>especialista</em>, a defesa da avaliação é sustentada do ponto de vista da necessidade de estabelecer a diferenciação entre os avaliados, premiando o mérito e, em consequência, conduzir à melhoria dos níveis de sucesso educativo nas escolas portuguesas. Aparentemente, trata-se de um objectivo meritório. </span></p>
<p><span style="font-family:Verdana;">Contudo, aquilo que realmente ali se tratou foi de um embate entre aqueles que procuram impôr um <em>modelo de avaliação</em> que convoca um sofisticado sistema de medições, regras e tabelas visando a caução científica para fins mais ou inconfessados, mas que procuram denegar a sua dimensão ideológica e aqueles que, embora movidos por diferentes motivações, </span><span style="font-family:Verdana;">recusam expôr-se a um novo «dispositivo de vigilância» que mais não é do que o resultado da expansão do paradigma da <em>medição</em> nas sociedades modernas. </span></p>
<p><span style="font-family:Verdana;">E o que é, então, denegado sob a roupagem pseudo-científica da avaliação? A emergência daquilo a que Giles Deleuze designou, apropropriando-se do conceito de  William Burroughs, como «sociedade de controle» e que Michel Foucault aponta como substituto das «sociedades disciplinares». E cuja formulação através da avaliação, mais não é, do ponto de vista técnico (objecto, método, resultados), do que uma consequência da expansão do paradigma da <em>medição,</em> corroborando o uso social da matemática nas sociedades modernas; e do ponto de vista do poder, um modo de funcionamento do Estado que institui uma maneira de governar que se exerce através da <em>matematização</em> da experiência.</span><span style="font-family:Verdana;"> </span></p>
<p><span style="font-family:Verdana;">O que é, então, a avaliação? E quem são os avaliadores? Conforme escreve o filósofo e psicanalista francês Jean-Claude Milner em <em>Voulez-vous être évalué</em>?, </span><span style="font-family:Verdana;">«a avaliação é essencialmente uma retórica. Os avaliadores são os sofistas de hoje». Sendo que a sofística da avaliação procura resolver sumariamente a questão dos critérios e da legitimidade dos próprios avaliadores, evitando, acima de tudo, que se coloque a incómoda questão: quem avalia os avaliadores, isto é, aqueles <em>especialistas</em> hiperactivos, fetichistas das medições, das classificações, dos escalonamentos, das comparações em cujos paradoxos inextrincáveis procuram enredar os avaliados?</span><span style="font-family:Verdana;"> </span></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/oquecaidosdias.wordpress.com/780/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/oquecaidosdias.wordpress.com/780/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/oquecaidosdias.wordpress.com/780/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/oquecaidosdias.wordpress.com/780/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/oquecaidosdias.wordpress.com/780/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/oquecaidosdias.wordpress.com/780/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/oquecaidosdias.wordpress.com/780/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/oquecaidosdias.wordpress.com/780/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/oquecaidosdias.wordpress.com/780/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/oquecaidosdias.wordpress.com/780/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/oquecaidosdias.wordpress.com/780/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/oquecaidosdias.wordpress.com/780/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/oquecaidosdias.wordpress.com/780/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/oquecaidosdias.wordpress.com/780/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=780&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">labirinto</media:title>
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	</item>
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		<title>Dar outras possibilidades ao mundo</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Nov 2008 21:37:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
				<category><![CDATA[analíticas da actualidade]]></category>

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		<description><![CDATA[  No rescaldo da vitória de Barack Obama, ponho-me a pensar se, talvez, amanhã, tudo não será, outra vez, a mesma baixa política &#8211; que legitimou gente como Bush e Berlusconi ou continua a entronizar gente como Tony Blair, cada um à sua maneira, aspirantes a Maquiavel -, e que este homem sem qualidades (Musil) [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=756&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;margin:0 0 10pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;margin:0 0 10pt;"><span style="font-size:12pt;line-height:115%;font-family:&quot;"><a href="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/11/obama-yes-we-can.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-761" title="obama-yes-we-can" src="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/11/obama-yes-we-can.jpg?w=460" alt="obama-yes-we-can"   /></a></span></p>
<p><span style="font-size:10pt;color:black;line-height:115%;font-family:&quot;"><span style="font-size:10pt;color:black;line-height:115%;font-family:&quot;">No rescaldo da vitória de Barack Obama, ponho-me a pensar se, talvez, amanhã, tudo não será, outra vez, a mesma baixa<em> </em>política &#8211; que legitimou gente como Bush e Berlusconi ou continua a entronizar gente como Tony Blair, cada um à sua maneira, aspirantes a Maquiavel -, e que este <em>homem sem qualidades</em> (Musil) que veio do futuro para dar outras possibilidades ao mundo se deixe, também ele, contaminar pela infâmia dos interesses inconfessados, pela interiorização do cinismo e pela amoralidade e demais patologias da experiência política contemporânea que fizeram deslizar o mundo, não apenas para a crise económica profunda de que todos falam, mas, sobretudo, parece ter instalado uma crise sem precedentes da experiência, colocando a humanidade &#8211; na expressão de Zygmunt Bauman &#8211; «frente ao inafrontável», isto é, sem pontos de referência que nos tranquilizem e nos guiem pelas estradas perdidas que nós próprios vamos <em>fazendo</em>. </span></span></p>
<p><span style="font-size:10pt;color:black;line-height:115%;font-family:&quot;">Mas hoje ainda não é amanhã, e o que vi na madrugada das eleições &#8211; e continuo a ver em vídeos no<em>YouTube</em> <em> </em>- é, entretanto, a imagem de um homem sereno e determinado a ajudar a encontrar o mapa que o mundo precisa para atravessar este deserto do mundo em que se tornou a modernidade fracassada, trazendo a uma parte da humanidade a esperança para enfrentar a crise – a económica e a existencial &#8211; e à outra parte da humanidade a esperança de vencer o terrível desafio da sobrevivência. Vi – vejo ainda &#8211; «um Presidente que tem uma cara em vez de um esgar e que usa a fala em lugar do balbucio», como escrevia José Manuel dos Santos, na sua crónica semanal na revista <em>Actual</em> . Alguém, talvez, ainda, capaz de usar o mandato político que lhe foi oferecido nas urnas para desenterrar do pântano a ética para ali atirada pela iniquidade que transformou a América dos pobres num deserto sem mapa. Talvez &#8211; quem sabe? – capaz, ainda, de evitar a catástrofe de «as coisas continuarem como antes», tanto na América como no resto do mundo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;margin:0 0 10pt;"><span style="font-size:10pt;color:black;line-height:115%;font-family:&quot;">Por isso, recuso o pensamento mesquinho que me assaltou por instantes. E o desconforto nihilista de pensar que à arrebatadora ilusão deste triunfo que anuncia outras possibilidades para mundo, poderá suceder a rápida e melancólica desilusão da sua impotência diante da política de bastidores e de alianças de conveniência. Escolho, então, definitivamente, a audácia de pensar que, mesmo que as contradições do tempo por vir venham a arrefecer o fogo sereno das palavras que cobriram o mundo na noite da vitória, uma coisa que Obama deu à América e que, nos tempos mais próximos, ninguém poderá retirar, foi a de <em>pôr o pensamento a pensar</em>, isto é, de ter incitado, e excitado, o pensamento de que, talvez, possa haver, ainda, outras possibilidades para o mundo. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin:0 0 10pt;"><span style="font-size:10pt;color:black;line-height:115%;font-family:&quot;">E a melhor prova disso, dessa rebelião contra a vertigem do vazio da política pós-moderna &#8211; mais ainda do que a sua oratória, simultaneamente, emotiva e serena, arrebatadora e racional, disciplinada e inteligente &#8211; foi a possibilidade consumada de um militante afro-americano, um advogado dos destituídos, um agitador social e político ter decidido ser Presidente da América para dar outras possibilidades ao mundo, fazendo do seu próprio itinerário vital, da sua vida transformada em narrativa, o seu principal trunfo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin:0 0 10pt;"><span style="font-size:10pt;color:black;line-height:115%;font-family:&quot;">Posto isto, o que poderá «um mundo de qualidades sem homem» (Jean-François Peyret) pedir ao <em>homem sem qualidades</em> musilianas que é Obama? Talvez não aquilo que nem ele nem ninguém jamais poderá devolver ao mundo, isto é, a remissão da nossa vida fragmentada, e muito menos qualquer «<em>promesse de bonheur</em>» (Stendhal). Talvez exigir-lhe, apenas, <em>não falhar a ocasião de nos salvar da catástorphe </em>(Walter Benjamin). E isso já será um programa absoluto contra a inabitabilidade do mundo e o desesperante<em> </em>nihilismo reinante. </span></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/oquecaidosdias.wordpress.com/756/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/oquecaidosdias.wordpress.com/756/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/oquecaidosdias.wordpress.com/756/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/oquecaidosdias.wordpress.com/756/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/oquecaidosdias.wordpress.com/756/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/oquecaidosdias.wordpress.com/756/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/oquecaidosdias.wordpress.com/756/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/oquecaidosdias.wordpress.com/756/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/oquecaidosdias.wordpress.com/756/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/oquecaidosdias.wordpress.com/756/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/oquecaidosdias.wordpress.com/756/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/oquecaidosdias.wordpress.com/756/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/oquecaidosdias.wordpress.com/756/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/oquecaidosdias.wordpress.com/756/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=756&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>No outro lado do poema absoluto</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Nov 2008 00:06:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
				<category><![CDATA[contra a interpretação]]></category>

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		<description><![CDATA[  Regresso a Herberto Helder, iluminado, ainda, pelos rastos do fogo lento da combustão das palavras da derradeira &#8211; ou talvez não &#8211; súmula da sua obra poética, alargada, agora, com uma secção inédita de 70 páginas, a cujo todo deu o nome de A faca não corta o fogo. E dizer que regresso, é apenas um modo de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=746&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> </p>
<p><a href="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/11/abismo1.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-752" title="abismo" src="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/11/abismo1.jpg?w=460" alt="abismo"   /></a></p>
<p>Regresso a Herberto Helder, iluminado, ainda, pelos rastos do fogo lento da combustão das palavras da derradeira &#8211; ou talvez não &#8211; <em>súmula</em> da sua obra poética, alargada, agora, com uma secção inédita de 70 páginas, a cujo todo deu o nome de <em>A faca não corta o fogo</em>. E dizer que <em>regresso</em>, é apenas um modo de dar conta da temporalidade deste blogue, para a qual o próprio título, de referência temporal, imediatamente remete, porque no que se refere à obra de Herberto Helder, essa é aversa a qualquer tentativa de arrumação diacrónica, na medida em que a sua temporalidade é apenas sincrónica, logo sem possibilidade de regressos, antes caminhando para o poema do «abrupto sentido, o poema absoluto», onde habita o caos.</p>
<p>E vou, de novo, percorrendo como um funâmbulo da leitura «a sensível cadeia das coisas que transitaram, correntes da terra para as correntes do poema». Como ler Helberto Helder, se não como um funâmbulo roçando o abismo onde habita o espírito do fogo? E dali, daqui, sobre o precipício do «poema absoluto» donde se abarcam as regiões do «terror» - a que só se acede através do idioma orgânico, escatológico, mineral e vegetal do poeta -, deixar-me, então, como agora, sucumbir diante o «extremo exercício da beleza» deste <em>livro final</em> que persegue o cosmos platónico<em>,</em> tão próximo já do programa de Mallarmé do <em>livro por vir</em> ou da parábola da <em>biblioteca</em> borgeseana que lhe é homóloga.</p>
<p>«Poema absoluto», mas cuja totalidade e perfeição, incessantemente procurada pelo <em>demiourgos</em> Herberto Helder, se revelará, se me revela agora, já no outro lado do abismo, inacessível. Porque apesar da proposição nietzschiana perseguida por Herberto Helder, <em>Deus é indestrutível</em> até mesmo ante o «extremo exercício da beleza» que habita nas profundidades deste <em>poema quase absoluto</em> que foi deixando para trás as falhas, o desperdício, o redundante.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/oquecaidosdias.wordpress.com/746/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/oquecaidosdias.wordpress.com/746/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/oquecaidosdias.wordpress.com/746/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/oquecaidosdias.wordpress.com/746/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/oquecaidosdias.wordpress.com/746/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/oquecaidosdias.wordpress.com/746/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/oquecaidosdias.wordpress.com/746/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/oquecaidosdias.wordpress.com/746/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/oquecaidosdias.wordpress.com/746/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/oquecaidosdias.wordpress.com/746/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/oquecaidosdias.wordpress.com/746/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/oquecaidosdias.wordpress.com/746/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/oquecaidosdias.wordpress.com/746/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/oquecaidosdias.wordpress.com/746/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=746&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">João Ventura</media:title>
		</media:content>

		<media:content url="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/11/abismo1.jpg" medium="image">
			<media:title type="html">abismo</media:title>
		</media:content>
	</item>
		<item>
		<title>Ou o poema sem poeta</title>
		<link>http://oquecaidosdias.wordpress.com/2008/10/23/ou-o-poema-sem-poeta/</link>
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		<pubDate>Thu, 23 Oct 2008 23:04:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
				<category><![CDATA[retratos de momento]]></category>

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		<description><![CDATA[Sabe-se que nasceu em 1930, no Funchal; que concluiu o 7º ano do Liceu na Escola Luís de Camões, em Lisboa; que frequentou Direito e, depois, Românicas, em Coimbra; que frequentou os cafés de Lisboa, com presença assídua no Café Gelo, onde conviveu com  Mário Cesariny, Luiz Pacheco e Hélder Macedo; que andou por fora, em França, na [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=oquecaidosdias.wordpress.com&amp;blog=830735&amp;post=725&amp;subd=oquecaidosdias&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/10/herbertohelder.gif"><img class="alignnone size-full wp-image-742" title="herbertohelder" src="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/10/herbertohelder.gif?w=460" alt=""   /></a></p>
<p>Sabe-se que nasceu em 1930, no Funchal; que concluiu o 7º ano do Liceu na Escola Luís de Camões, em Lisboa; que frequentou Direito e, depois, Românicas, em Coimbra; que frequentou os cafés de Lisboa, com presença assídua no Café Gelo, onde conviveu com  Mário Cesariny, Luiz Pacheco e Hélder Macedo; que andou por fora, em França, na Bélgica, na Holanda, na Dinarmarca onde experimentou vários empregos: criado de mesa numa cervejaria, cortador de legumes numa loja de sopas, enfardador de aparas de papel, operário nas forjas de Clabeck, carregador de camiões, guia de marinheiros em bairros de prostituição de Antuérpia. E que foi durante estas andanças, entre 1958 e 1960, que escreveu grande parte dos textos de <em>A Colher na Boca</em> (1961) e <em>Os Passos em Volta</em> (1963). Vai-se apagando, depois, a sua vida civil: uma passagem pelas Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian; tradutor de literatura médica; jornalista, tendo nesta qualidade feito uma reportagem de um Benfica-Sporting, em 1972, intitulada <em>Uma ida ao Campo; </em>psicoterapias; um processo crime por causa da sua colaboração na publicação de <em>Filosofia de Alcova</em>, de Sade; um acidente de viação que o atira para o hospital durante três meses; algumas viagens ao estrangeiro&#8230; Este o <em>photomathon</em> biográfico possível quando Herberto não tinha ainda migrado para o interior da sua obra.</p>
<p>Depois, escreve em <em>Photomaton &amp; Vox</em> (1979): «Tenho de inventar a minha vida verdadeira». E inventa-a de tal maneira que passa a viver apenas dentro dos seus livros. Torna-se num «escritor oculto»: nem aparições públicas, nem entrevistas, nem fotografias nos jornais, nem conversas com leitores. Nem prémios: em 1994 recusa o Prémio Pessoa com que fora distinguido. Ainda em <em>Photomaton &amp; Vox</em> escreve: «Não me vou deixar apanhar por tentações biográficas, a memória, os mitos que as culturas, marginais ou não, parecem querer que eu adopte. Não sou um símbolo da imaginação alheia». Subtrai-se por vontade às «câmaras ecoantes: (&#8230;) as respostas caóticas, o êxito, o erro, a morte da alma». Apaga-se como figura civil, instaurando o silêncio biográfico sobre si mesmo. Sublinha Manuel Gusmão que «num gesto de predestinação furiosa e paciente, o nome de &#8220;Herberto Helder&#8221; migrou para o interior ou as margens do seu poema: [<em>Herberto Helder</em>]<em> Ou o poema contínuo</em>». Nome e título de obra passam a ser a mesma coisa, fluindo ambos na «torrente silenciosa» e alucinada que se expande até ao limite do verbo num «poema absoluto» que escapa, como autorizaria Blanchot, «a qualquer determinação essencial, a toda a afirmação que o estabilize».</p>
<p>Como ler esta ocultação do autor na obra? Talvez como um extremo exercício do poema para escapar à determinação hermenêutica da tutela autoral. É que, lê-se num trecho de <em>Photomathon &amp; Vox</em>, «&#8230; uma noite começo a escrever. Tenho memória. Nada foi esquecido, vem adequado agora aos vindicativos sentidos da expressão e da representação. E assim caminho para o esgotamento, no centro da fecundidade. As pessoas perdem o nome, as coisas limpam-se, cessam a fuga do espaço e o movimento dispersivo do tempo. Fica um núcleo cerrado. Fico eu». Ora é este &#8220;eu&#8221; biográfico que Herberto recusa. Por isso, dissolve-se na obra passando a existir única e exclusivamente nela, o que explica a interposição de um &#8220;ou&#8221; entre o seu nome e o título da obra. Porque a sua voz de autor já só existe no interior ou nas margens da sua obra. Erradica-se o autor. E fica a «inóspita beleza» em forma de um «poema contínuo» ardendo em lenta combustão.</p>
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		<title>Fogo lento</title>
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		<pubDate>Sun, 19 Oct 2008 22:30:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Ventura</dc:creator>
				<category><![CDATA[contra a interpretação]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<h6><a href="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/10/herberto_helder.jpg"></a></h6>
<p class="MsoNormal" style="line-height:15.9pt;margin:0 0 10pt;"><span style="font-size:10pt;color:#000000;font-family:&quot;"><img class="alignnone size-full wp-image-918" title="ecto_blanchotx520" src="http://oquecaidosdias.files.wordpress.com/2008/10/ecto_blanchotx520.jpg?w=460&#038;h=345" alt="ecto_blanchotx520" width="460" height="345" /></span></p>
<div>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0 0 10pt;"><span style="font-size:12pt;color:black;"><span style="font-family:Calibri;">Se olharmos para os escaparates das livrarias de hoje, veremos que o que abunda é a redundância na qual se afunda o campo literário actual indelevelmente rasurado pelas regras do mercado e pela desejo de uma nova «raça de escritores, imitadores do já feito», em permanecer na «eternidade preguiçosa dos ídolos», como escreveu Blanchot. Por isso, nestes «tempos de redundância», a reedição da «súmula» de Herberto Helder, acrescida de um conjunto de poemas inéditos (<em>A Faca Não Corta o Fogo,</em> Assírio &amp; Alvim), constitui, por si só, um questionamento «intempestivo» &#8211; como sublinhou António Guerreiro em artigo publicado na semana passada na revista Actual &#8211; do próprio lugar da poesia ante a constelação de vazios que preenche um espaço literário cuja legitimidade não é mais outorgada pela palavra poética mas sim pelas regras do mercado editorial ditadas pelos tais «trapezistas do marketing» de que fala Vila-Matas em <em>O mal de Montano</em>.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0 0 10pt;"><span style="font-size:12pt;color:black;"><span style="font-family:Calibri;">É que Herberto Helder pertence, ainda, a outro tempo. A um tempo em que os poetas ambicionavam constituir-se exclusivamente através da sua obra, fugindo por vontade própria da vida mundana e da vacuidade dos prémios e honrarias. Porque já Séneca dizia que a fama é horrível pois depende do juízo de muitos. E Flaubert: «as honrarias desonram». E Herberto Helder, numa remota entrevista: «O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo». E, depois, noutra rara entrevista: «Há quem se ponha no centro de câmaras ecoantes: e os ecos chegam de todos os lados: as respostas caóticas, o êxito, o erro, a morte da alma». Por isso, nas últimas décadas Herberto Helder vem cegando todo o espaço mediático à sua volta: nem entrevistas, nem aparições públicas, nem conversas com leitores, nem prémios. Apenas um intransigente silêncio em que se dissolve não apenas a sua biografia mas também qualquer tentativa de aproximação hermenêutica à sua obra através da sua autoridade autoral.  </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0 0 10pt;"><span style="font-size:12pt;color:black;"><span style="font-family:Calibri;">Daí a decisão radical de ter como única morada a poesia, fazendo do auto-apagamento, da dissolução biográfica, da recusa da interpretação da sua obra, o trabalho de toda uma vida. «Não moramos autenticamente senão aí onde a poesia tem lugar e dá lugar», escreve Blanchot em <em>O livro por vir. </em>E, antes dele, Hölderlin: «… é poeticamente que o homem permanece». E noutro verso ainda: «Mas o que permanece, os poetas o fundam». Insondável morada esta habitada pelo «idioma bárbaro» de Herberto Helder que sustenta o bruxulear de uma luz, abre a vacilação de um caminho em direcção ao «poema absoluto» através do qual o poeta busca a superação do mito com uma violência nietzschiana: «Até que Deus [seja] destruído pelo extremo exercício da beleza».</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:normal;margin:0 0 10pt;"><span style="font-size:12pt;color:black;"><span style="font-family:Calibri;">E o que funda Herberto Helder através da radical redução da <em>Poesia Toda </em>(1981) operada, primeiro, em <em>Ou o Poema Contínuo</em> (2001) e, agora, em <em>A Faca Não Corta o Fogo -</em> como se a sua obra fosse um «poema contínuo» crepitando num fogo lento donde se soltam «as notas impreteríveis para que da pauta se erga a música, uma decerto não muito hínica, não muito larga nem límpida música, mas este som de quem sopra os instrumentos na escuridão», como ele próprio já advertia na <em>súmula</em> primeira? Talvez, sempre, os mesmos «punti luminosi poundianos, ou núcleos de energia assegurando uma continuidade do sensível» que antes dele já Pessoa perseguira, deixando aberta a ideia da literatura como utopia ou, se se preferir,  arriscando uma concepção mallermaneana do<em> livro por vir</em> que encontramos no livro homónimo de Blanchot.</span></span><span style="color:black;"></span></p>
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