A página assinalada

 
Na corrente proposta pela Maria do Rosário/Divas & Contrabaixos, poderia ser outro livro qualquer e outra página qualquer a assinalar, mas o acaso surpreendeu-me regressando do mapa obscuro onde Canetti acharia que me perderia enquanto expedicionário, tantas são as bifurcações que irrompem nesse abismo que ousei explorar em noites recentes sem outra orientação que não [...]

Retrato breve

 
Conheço pouco da obra de Doris Lessing, a laureada deste ano, mas gosto do seu olhar tranquilo, luminoso e, simultaneamente, distante. E mais do que a sua obra, desperta-me curiosidade a sua biografia. Uma mulher que nasce em Kermanshah, na Pérsia, e vai viver para África aos seis anos, que trabalha como telefonista em Salisbury, que é capaz de andar de [...]

Espião casual

 
Diz António Trabucchi que todos os escritores são um pouco voyeurs, todos olham para lá das portas que abrem para os abismos de todos os dias, procurando roubar a experiência de outras vidas. Enrique Vila-Matas confessa esse pecado dizendo que tem por hábito fazer de espião casual no autocarro nº 24 que percorre «la calle [...]

À beira do abismo

 
«O que escreves?, perguntaram-me há um ano. Depois do Doctor Pasavento, vivia numa permanente sensação de caminho enclausurado, pois sentia que havia chegado ao final de um certo percurso e que diante mim se abria um abismo. Escrevo o título de um livro, respondi. O título era Exploradores do Abismo. Nos dias que se seguiram, começaram [...]

No «Bairro» (IV): periferias

Por analogia com o seu homónimo que procurava o desaparecimento, o eclipse, este Walser [O Senhor Walser, Gonçalo M. Tavares, Caminho, 2006] é mais dado ao recato que os primeiros povoadores do Bairro. Por isso, manda construir a sua casa «a uns bons quilómetros do bairro mais próximo», no que se assemelha ao Walser-outro, também ele instalado numa casa [...]

No «Bairro» (III): licores fortes

Agora a taberna. O Senhor Henri [Gonçalo M. Tavares, Caminho, 2003]. O absinto. O álcool como estímulo, fonte de inspiração literária. Pessoa bebendo um copo de aguardente no Abel Pereira da Fonseca. O vinho de Goethe. A tequilla de Malcolm Lowry. O whisky de José Cardoso Pires. «É preciso estar absolutamente bêbado», declarou Baudelaire. E Rimbaud que dizia «sobretudo, [...]

No «Bairro» (II): genealogias

Estes senhores parecem livros para crianças. E são. Para as crianças que ocultamos em nós. Mas são mais do que isso se acreditarmos, como Paul Valéry, que o «infinito é uma questão de escrita e que «o universo só existe no papel». Em O Senhor Valéry [Gonçalo M. Tavares, Caminho, 2002] talvez seja possível descortinar uma [...]

Projecto para uma roda de leitura perigosa

 
Intrometo-me no book crossing que anda por aí e atrevo-me a propor alguns livros para serem postos a  girar, este Verão, numa Roda da Leitura como a que a imagem acima reproduz [cf. Agostino Ramelli: projecto para uma roda de leitura. Paris, 1588]. Basta colocá-los na roda, carregar no pedal e, depois, ir lendo ou relendo os [...]

Jonathan Safran Foer

«Todos os livros são sobre a perda», diz Jonathan Safran Foer, um dos mais promissores escritores norte-americanos, segundo a revista Granta, tal como Nicole Krauss, sua mulher, autora de A história do amor [Dom Quixote] que evoquei num post anterior. Pelo menos os livros que escreveu W. G. Sebald são sobre a perda. Livros sobre a consternação do mundo, sobre [...]

A moeda do tempo

 
O poeta derrama o corpo e as emoções na praia do poema onde se espraiam «as coisas contemporâneas» e se escuta o «som do mundo» que ecoa nos versos que escreve e na recordação dos versos de outros poetas. A infância, a memória, os amigos, a perda, a eternidade da morte. A experiência do tempo [...]

Urbano Tavares Rodrigues, o anti-bartleby

 
É, talvez, o mais profícuo dos escritores portugueses. O mais anti-bartlebyano de todos, contra exemplo do escrevente Bartleby, aquele empregado de escritório de um conto de Herman Melville, que inspirou Enrique Vila-Matas a escrever Bartleby & Companhia, espécie de diário-ensaio sobre os escritores que renunciaram à escrita para melhor poderem se afirmar. A ele se deve, ainda, a recuperação de [...]

Realismo mágico alentejano

 
No post anterior, a propósito de Mértola e da sua excentricidade, evoquei de passagem o romance O perfumista, de Joaquim Mestre [Oficina do Livro]. Na 6ª feira, em conversa com a Lídia Jorge, falou-se do seu primeiro livro O dia dos prodígios, do seu ambiente onírico, telúrico, e não pude deixar de pensar que o livro de Joaquim [...]

A nova serialidade televisiva

 
Hoje, um post num registo diferente dos que têm caído aqui. Atrevo-me a dizer que sobre outro tipo de literatura, a literatura audio-visual «pós-moderna» da qual não sou propriamente um aficcionado, até porque as minhas horas diante do pequeno ecrã, tenho-as ocupado ultimamente a rever em DVD os clássicos de cinema que vão chegando. E não só, revi em [...]

No bairro de Gonçalo M. Tavares

 
O Senhor Walser é o mais recente inquilino do Bairro que Gonçalves M. Tavares vem povoando, correspondendo a um programa de «alojamento» ficcional de contornos lúdicos com avatares filosóficos de escritores famosos. Trata-se agora da saga doméstica do Senhor Walser, numa clara evocação do escritor suiço Roberto Walser que cultivou um estilo de vida e uma [...]

Cemitérios de pianos

No ventre de uma oficina de carpintaria há um cemitério de pianos cujo mecanismo, à semelhança dos seres que procuram esse refúgio, não está morto, mas apenas suspenso no tempo. Lugar recatado de iniciação sexual, gritos de amor e esconderijo de adúlteros; exílio voluntário de leituras clandestinas onde se soltam pensamentos; confessionário de mortos; pátio [...]