Paris pelos passos de Cortázar

Como se terá percebido pelos dois posts anteriores, tenho andado por estes dias deambulando ao jeito de Michel Butor (L´emploi du temps) entre el lado de allá e el lado de acá da Rayuela, de Cortázar. Ou, dito de outro modo, entre Paris e Buenos Aires, cidades metafóricas que no livro vou encontrando bifurcadas uma [...]

Cidade adormecida

Li já não sei onde que quando tinha dez anos Cortázar viveu a inesquecível experiência de subir ao décimo andar de um edifício em Buenos Aires e dali observar a cidade adormecida. Era, então, uma criança sensível, sem graça e estranha. A primeira metade da sua vida tinha-a passado com a sua família na Suíça, nas margens [...]

Bifurcações.

Lembro-me de numa manhã de Verão declinante, sob um sol de areia, ter apanhado um taxi à porta do número 1660 da rua Anchorena que acabara de visitar, em Palermo, onde Borges viveu entre 1938 e 1946, e que naquela manhã foi, também para mim, uma espécie de casa de Asterión, como a do conto homónimo, onde «todas as partes [...] existem muitas [...]

Buenos Aires pelos passos de Borges

Numa noite chuvosa de 1936, o fotógrafo Horacio Coppola e o escritor Jorge Luis Borges faziam um de seus habituais passeios pelas ruas de Buenos Aires. Coppola parou diante de uma poça. Ajustou a câmera e disparou. No espelho de água, estava refletida a silhueta de uma casa do bairro de Palermo. Quando viu revelada a [...]

Uma cena vienense

«Como todas as cidades, [Viena] era feita de irregularidade, mudança, precipitações, intermitências, choques de coisas e interesses, tudo intervalado de silêncios abissais, de caminhos abertos e territórios por abrir, de uma grande pulsação rítmica e da eterna dissonância, da crónica deslocação mútua desses ritmos. No seu conjunto, era como uma bolha em ebulição num cadinho feito da [...]

Flâneries

 
Paris, 1857. Um homem caminha de olhos baixos por «uma nova avenida, ainda inacabada, ainda cheia de entulho [...] exibindo os seus inacabados esplendores». Ao lado, as ruínas dos velhos bairros - escuros, densos, assustadores - amontoadas no chão. Uma família andrajosa emerge do entulho à procura da nova luz da cidade moderna. No dobrar de uma esquina, o [...]

Hotéis de passagem

Todos hotéis são por natureza lugares transitórios. Alguns são hotéis de passe para amantes ocasionais. Outros são hotéis passagem para transeuntes nocturnos roçando abismos por cruzar. E outros há, ainda, que são protagonistas de histórias em que a realidade supera a ficção, como um tal hotel Cervantes, situado numa rua do centro de Montevideu que aparece [...]

Diário chileno (X). Voo nocturno

 
1. Viagem ao fim da noite. Junto à porta de embarque número 60 do aeroporto Toribio Merino, em Santiago do Chile, vejo passar em formação cerrada a tripulação do voo Suiss 97 que daqui a pouco se fará aos céus por cima da cordilheira branca. Com passada rápida e decidida, cruzam o umbral que leva ao grande pássaro [...]

Diário chileno (IX). Crónica porteña

É no porto onde acostam embarcações adormecidas, sobrevoadas por bandos esfomeados de gaivotas e pelicanos, que se deve procurar o carácter porteño de Valparaíso onde marinheiros de todas as épocas viram a sua imagem abandonada no espelho quebrado da baía que reflecte o anfiteatro de casario colorido descendo num dédalo de ruelas, becos e escadarias ziguezagueantes os quarenta [...]

Diário chileno (VIII). A cultura na cidade

 
1. A julgar pelo que não se lê no metro de Santiago, pode inferir-se que por aqui se lê pouco. E que os livros são caros, porque na maioria importados - Anagrama, Alfaguara, Ediciones B, Seix Barral. Resta, então, a quem precisa de livros para viver, comprá-los em livrarias de saldos ou de usados que [...]

Diário chileno (VII). Luz e nevoeiro

 
1. Estou na Patagónia. Não os territórios magalhânicos, errando pelos páramos ventosos e rudes do fim do mundo, mas apenas num restaurante homónimo, na rua Lastratria, em Santiago, aonde me trouxeram os meus passos incertos de detectve salvaje em busca do aleph santiaguino que por aqui deve estar escondido. E nesta Patagónia que já foi mercearia, ainda ali se [...]

Diário chileno (VI). Jantando com Bolaño

 
Segundo dia numa Santiago radiante apesar dos colegiais fardados, dos carabineros de olhar distante, da mesma matilha de cães vadios errando na Alameda. E as mulheres formosas de olhos de uva, essas ainda não as vi. Mas comecemos pelo princípio. Ontem, ao jantar, esbocei com Daniel um arrojado plano de evasão rumo ao sul, no [...]

Diário chileno (V). Entardecer nervoso

 
Todas as cidades têm o seu aleph, isto é, um lugar secreto capaz de albergar todas as representações que fomos construindo sobre cada uma delas. Em Santiago, procuro-o ao entardecer nervoso, desde a Plaza de Armas, ocupada por pintores que reivindincam aquele espaço para expor o seu trabalho, jogadores de xadrez e damas, desempregados e passeantes fortuitos como eu. Sigo por Ahumada [...]

Diário chileno (IV). Santiago do Chile

 
Chego a Santiago do Chile 26 horas depois de ter saído de casa. A combi que me transporta desde o aeroporto Toribio Merino acompanhando a corrente poluída do rio Mapoche, atravessa agora uma cidade radiante, com incandescentes torres de vidro pós-modernas e gigantescos centros comerciais coabitando com veneráveis habitações coloniais, alguns edifícios Art Deco e outros sem estilo nenhum, numa acumulação espalhafatosa de formas que compoem o mixt arquitectónico de [...]

Diário chileno (III). Fazer a mala com Bolaño

 
E que levar na mala? Roupas frescas, porque agora começa o Verão austral; também uns agasalhos porque, à noite, a sopra uma aragem fresca  vinda da cordilheira, adverte-me o Daniel Barraco. Algumas prendas, claro. Marisa ao vivo em Lisboa, a incontornável garrafa de Porto e um queijo e estrelas de figo que comprei hoje no mercado. Pequenos sabores de um tempo em desagregação. [...]