De um outro uso do nihilismo

Numa carta enviada a Louise Collet, em 1850, Flaubert escrevia: «O mundo vai tornar-se tremendamente imbecil. Nos próximos anos, a coisa vai ficar muito aborrecida. É uma sorte vivermos agora e não mais tarde» [Gallimard, 1998]. Flaubert antecipava, então, o apogeu da banalidade num mundo em que a gente dita ilustrada começava já a mover-se sem ética nem estética, prenunciando [...]

Falemos de Deus

 
Raramente falamos de Deus.  E quando a ele nos referimos preferimos a metáfora, como se tudo o resto se descolasse do seu nome.  E ainda menos falamos dessa questão «menor» de acreditar ou não acreditar em Deus, preferindo cruzar os braços contra a crença profunda em que nascemos.  A verdade é que herdámos Deus mesmo antes de termos conhecido  [...]

Um lugar no atlas

 
Ainda o descentramento do olhar na exposição Atlas Group -que pode ser visitada como mais uma estação do atlas dos acontecimentos da Gulbenkian - um projecto de Walid Raad sobre a história contemporânea do Líbano visando a desmontagem dos dispositivos mediáticos responsáveis pela coisificação da memória recente dos acontecimentos nesse lugar do atlas. Uma espécie de arquivo visitável - constituído por [...]

Os dias calcinados

 
Durante o Verão, surgiu uma tromba de fogo no crepúsculo do Árctico, sobre o mar de Barens, derramando sobre as nuvens baixas que encobriam o céu de Hammerfest uma luminosidade laranja espectral, anunciando a extensão à cena árctica da nova versão patética da tetralogia de Wagner, agora reposta sob a forma da maldição do gás adormecido durante milhões de anos sob as [...]

Retóricas do 11-S

 
Foi há seis anos, mais os dezoito dias que passaram desde o último 11 de Setembro, que a queda das Torres Gémeas, em Nova Iorque, inaugurou de forma tragicamente espectacular o novo milénio, trazendo consigo o regresso da História depois do seu «fim» proclamado por Francis Fukuyama e de um período em que se assistiu a uma espécie de «greve dos [...]

Amor sólido

 
Poderá o pensamento continuar a pensar até ao fim da vida? Ou, à medida que um pensador original avança na idade, mais não faz do que produzir variações do seu tema fundador? Proust dizia que há apenas um único grande livro que cada escritor escreve ao longo da sua vida. Talvez isso se aplique ao [...]

A cada um o seu lugar?

 
Argumentando ainda a favor da criação de uma chinatown, em Lisboa, Maria José Nogueira Pinto demarcava-se, na semana passada, no Diário de Notícias  daqueles que acham que o mercado tudo regulará, mesmo que isso conduza ao desaparecimento do comércio tradicional. Escrevia, então, que «na sua lógica pura, um defensor acérrimo do mercado apostará na progressiva substituição de todo este comércio [...]

Que fazer quando tudo arde?

 
Pode o pensamento voltar a pensar? E o que é o pensamento? Pensar é uma forma de agudização, a forma mais intensa de discernimento, isto é de expressar um sentimento. Por isso, o pensamento e a linguagem que o expressa, embora objectivos, nunca são emocionalmente neutros. Já Kant dizia que quando se entregava a uma tarefa fazia-o todo o [...]

Fascismo de entretenimento

«Há uma organização terrorista europeia, sedeada na Holanda e que actua a coberto do disfarce de produção de conteúdos televisivos. Chama-se Endemol, foi fundada por um holandês, comprada pela Telefonica espanhola e acaba de ser vendida ao muito recomendável senhor Berlusconi», denunciava há duas semanas, com a agudeza crítica que se lhe reconhece, Miguel Sousa Tavares, na [...]

A rasura dos jornais

Escrevia Eduardo Prado Coelho há alguns dias na sua crónica diária no Público que o que se passa neste momento na cultura portuguesa «não pode deixar de suscitar alguma angústia». Ou, procurando um registo mais neutro, «alguma perplexidade». Entre outros sinais da precariedade cultural actual, como o acentuado desinvestimento do Ministério da Cultura nas suas instituições (veja-se o que se [...]

Simulacro e realidade

Pensador do quotidiano contemporâneo, mas ineficaz na sua interpelação racional porque enredado na própria teia que teceu para abordar a sociedade de consumo onde, em sua opinião, tudo se desvaneceria e tudo não passaria de um simulacro da realidade travestida numa sucessão de acontecimentos transcendentes, Jean Baudrillard morreu ontem, em Paris, com 77 anos de [...]