Dramaturgia orgânica

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A apresentação, ontem, no TEMPO, de La omisión de la familia Coleman foi uma verdadeira festa cénica, num auditório lotado com um público maioritariamente jovem, constituindo para muitos o seu baptismo teatral. Mas a peça que Claudio Tolcachir criou através de um processo de experimentação com jovens actores na escola que instalou na sua própria casa foi, sobretudo, um soco no estômago, neste tempo de crise que vamos vivendo.

Tolcachir é uma espécie de benjamin da formidável geração de Alejandro Tantanián, Javier Daulte e Rafael Spregelburd numa Argentina onde o teatro é sempre «o paciente magnífico», como dizia George Kauffmann, citado no El País, porque embora falte quase sempre o dinheiro, nunca esmorece o sentido da utopia que o põe em movimento nem um público com uma grande voracidade cultural que enche as salas de teatro independente. Tolcachir sublinha o facto do teatro independente se criar a partir «da pobreza, do sangue: faz-se porque se quer fazer e isto faz com que as obras sejam muito vivas, muito sanguinárias, porque nascem de uma verdadeira vontade».

E também ele quis fazer um teatro assim. Farto de bater às mesmas portas fechadas de sempre, Tolcachir transformou a sua casa num palco e numa escola de actores, como me contam os próprios Coleman num dos intervalos de normalidade familiar, entre o ensaio da tarde e o espectáculo da noite. Sem horários de abertura nem de encerramento, noite adentro, muitas vezes até de madrugrada, assim foi nascendo, dizem-me, o Timbre 4, na Boedo 640, numa sala de uma casa chorizo, uma casa típica argentina com corredores ao meio a separar todas as divisões. Durante meses, Tolcachir e os seus alunos foram inventando a retorcida árvore genealógica da família Coleman e, assim, foram também criando a sua primeira obra dramática, uma peça que viria a revelar uma surpreendente maturidade. Inventaram a família e viveram como família na mesma divisão doméstica onde se estreou, em Agosto de 2005, a peça que viria a tornar-se num fenómeno teatral, com mais de 600 representações nos quatro anos em que esteve em cartaz em Buenos Aires. Depois, os Coleman viajaram por toda a América Latina, Nova Iorque, Cádiz, Madrid, Saravejo, Lisboa e, agora, Portimão, sempre com críticas elogiosas. Ontem, almocei com eles num restaurante típico da cidade e pareceram-me «uma família normal, como todas, com as suas coisas», como será, depois, dito na peça.

Porém, ao princípio da tarde, quando me assomei ao ensaio, tudo me fez começar a desconfiar da sua normalidade aparente: personagens encarcerados numa dolorosa e absurda coexistência doméstica, diálogos delirantes, o grotesco transformado em normalidade. Uma versão porteña e grotesca da mesma normalidade familiar que Lucrecia Martel já nos apresentara, antes, no ciclo de cinema que o TEMPO lhe dedicou há duas semanas. E à noite, confirmei as suspeitas. Uma família vivendo no limite da dissolução. Uma convivência impossível, onde a violência irrompe como se fosse a coisa mais natural. A situação tornando-se insustentável quando a avó, figura vital encarregada de suster os ânimos e as tensões quotidianas, morre. E um humor que não esmorece e sob o qual se escondem horrores insuspeitos: incesto, roubos, traições, favores sexuais, doenças e um doloroso desamparo final. Debaixo do tapete das omissões familiares, o não dito, o recalcado explodindo em todas as direcções através de uma comicidade ácida construída sobre o trágico da situação. Diálogos elípticos mas em constante efervescência, donde resulta uma das peças mais deliciosamente subversivas que vi ultimamente. Uma dramaturgia orgânica através da qual Tolcachir retrata o vertiginoso ritmo de vida que vamos levando, carregada de silêncios, omissões, incomunicabilidade, num deslizamento contínuo para o pântano que apenas o extraordinário personagem Marito, na sua lúcida loucura, é capaz de antecipar: «la casa se hunde».

Os Coleman partem amanhã para España e, depois, para Buenos Aires. Dizem-me que voltarão, em Outubro, para o festival Iberoamericano de Cádiz com a sua última peça, Tercer cuerpo, que fala da doença da cidade que é a solidão. Talvez regressem também ao TEMPO. Talvez eu próprio regresse antes a Buenos Aires, porque segundo me afiançaram estes Coleman que conheci por estes dias, por lá, «em épocas de crise, a única coisa que se vende são bilhetes».

 

[Texto publicado ontem no blogue do TEMPO - Teatro Municipal de Portimão, e que aqui reproduzo para vos dar conta de que também ali vou escrevendo sobre o que me cai dos dias na minha actividade profissional. Outro TEMPO, portanto, que vos convido a atravessar. Às vezes, bifurcações entre aquele TEMPO e o que me cai aqui dos dias].

1 Comentário(s)

  1. Paciente magnífico. impaciento-me.

    admirável travessia. convite aceite

    abraço

    iv


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