No Bairro portátil do senhor Tavares (VII): um cacaniano aposentado

kkraus

«O Senhor Kraus saiu do jornal bem-disposto. Sabia que nos tempos que corriam (para trás?, para o lado?) a única forma objectiva de comentar a política era a sátira». O Senhor Kraus é uma personagem vagamente shandiana. E digo vagamente porque, não obstante a funda ironia e a ácida insolência que caracteriza o seu estilo jornalístico, além da, claro está, sustentável leveza do 5º livrinho deste Bairro portátil que vou revisitanto, não consigo fazer descolar a sua figura da seu severo homónimo Karl Kraus que numa Viena em apocalipse alegre escrevia e publicava sozinho a revista  Die  Fackel, com tal escrupulosidade que não só nunca lhe escapava a denuncia de tudo o que era podre e falso como nunca falhava, sequer, a colocação da vírgula menos pertinente.

O Senhor Kraus mimetiza o visionário nihilista e impiedoso crítico seu homónimo que – como escreveu Roberto Calasso, em Os quarenta e nove degraus -,  tendo antecipado que «se encontrava numa época que esvazia a noção discursiva e teatral de adversário, estendendo-a a tudo, dissipando-a em névoa, tornando qualquer um facilmente inimigo de si mesmo», se retirou para a vida privada do Bairro de Gonçalo M. Tavares. Ao contrário do seu duplo cacaniano que achava que «o jornalismo comia o pensamento», o Senhor Kraus é um jornalista shandy que apanha o acontecimento político de modo expedito, sem estar preocupado com qualquer refinamento estilístico.

Antecipando as causas da crise por vir, o Senhor Kraus apanhou de cernelha um acontecimento raro: «Uma enorme comitiva de economistas entrou nos aposentos centrais. Traziam um relatório gigante. Era o diagnóstico; o estado da economia do país ali estava, ao pormenor. Três meses de trabalho envolvendo mais de 32 mil economistas. Bem remunerados, mas era merecido: o relatório tinha mais de seiscentas páginas. E um índice. Foi no índice que o Chefe pegou». Às vezes, a realidade imita a ficção.

Afinal, a leveza destes livrinhos portáteis só o será aparentemente. Diria, antes, que são de uma insustentável leveza em matéria de expressão literária breve e despretenciosa para apanhar o quotidiano sem estar a coberto de qualquer propósito moralizador.

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