O meu post anterior sobre a natureza instrumental da avaliação dos professores suscita-me, entretanto, outra breve reflexão, ainda decorrente das posições postas em confronto no aludido debate televisivo. É que através desse sofisticado sistema de medições, regras e tabelas que querem impor aos professores e à escola, utilizadas não tanto como processo mas como caução científica visando a denegação da dimensão ideológica da avaliação, o que se verifica mais não é do que a denegação da política, entendida, como defende Jacques Rancière, como o embate entre aqueles que querem ser ouvidos e reconhecidos como uma parte legítima na discussão e as nomenklaturas do governo, dos tecnocratas da educação e dos sindicatos.
E de que embate se trata, então, aqui? Desde logo, do embate entre a visão instrumental e manipuladora partilhada pelo governo e tecnocratas da educação e os sindicatos, cujas ressonâncias retóricas se fizeram escutar agudamente no início do referido debate televisivo. Uns procurando neutralizar a dimensão política da revolta da classe inteira dos professores. E os outros procurando apropriar-se dessa revolta, apresentando-a - como autorizaria o filósofo esloveno Slavoj Zizek (Elogio da intolerância, Relógio d´Água) - como uma «condensação metafórica da oposição global contra aqueles que detêm o poder», de tal maneira que o processo reivindicativo em desenvolvimento já não se refere simplesmente à reclamação de um outro modelo de avaliação, mas envolve a dimensão da exigência da demissão dos responsáveis pela política educativa do governo e a revogação de todo o quadro legal que enquadra a avaliação. Daí que os sindicatos, para não perderem o controle dos professores – que, talvez, comecem a partir de agora a sentir-se um tanto ou quanto desenganados, porque, entretanto, o governo satisfez algumas das suas reclamações na tentativa de os privar dos objectivos do seu protesto – avancem, agora, com novas reivindicações que não estavam na agenda que conduziu à revolta.
E, depois, o outro embate, menos ressonante em termos mediáticos mas mais sentido no interior das escolas, entre o aparelho dos especialistas educacionais do governo cujo objectivo último é a transformação da administração da educação centrada nas pessoas numa administração das coisas da educação no interior de uma ordem racional apoiada num modelo procedimental instrumental economicista e os professores desalinhados que reclamam que as suas vozes sejam reconhecidas como fazendo parte de uma esfera pública aberta a outras narrativas - que não as mesmas de sempre, isto é, as dos governantes versus partidos da oposição e sindicatos - onde se faça ouvir o discurso dos professores excluídos e se possa, finalmente, processar a negociação e o compromisso estratégico entre as partes.
3 Comentários
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Olá amigo! Um texto lapidar. Bom regresso é o que te desejo. Já sentia a falta da tua escritaa
Como estudante de Pedagogia e com mãe e tias professoras, estou literalmente inserida nesse contexto de embates (ainda que isso não me apeteça). O fato, menos evidente porque omisso, é que a prática não suporta a teoria e está completamente alheia à realidade (muitas omissões, hipocrisias, enfim, artifícios de politicagem que maculam qualquer bom intento). O governo tem que parar de agir pensando apenas em números. Um toque de humanidade que repercuta em qualidade é o que está faltando.
João, faz tempo que eu não visitava seu blog, estava com saudades! É sempre um privilégio ler seus escritos (muito instrutivoo, e o prazer é todo meu). Beijos, tenha uma semana repleta de bons momentos. C.V.
Gostei de reencontrá-la aqui.
Quanto à semana que aí vem, será seguramente repleta de bons momentos. Espreite através da porta entreaberta do TEMPO cujo limiar encontra no post hoje. Beijos.
JV