A propósito de O homem sem qualidades diz J. M. Coetzee, num ensaio sobre Musil, tratar-se de «um livro ultrapassado pela própria História enquanto estava a ser escrito». E que, por isso, seria impossível lê-lo da mesma forma depois da ascensão do nazismo. Não interpreto assim. Entendo, pelo contrário, que a corrente da banalidade do mal que há-de desaguar, depois, na [...]
Abril 28, 2008
Categorias: contra a interpretação . . Autor: João Ventura . Comentários: 1 Comment
«Como todas as cidades, [Viena] era feita de irregularidade, mudança, precipitações, intermitências, choques de coisas e interesses, tudo intervalado de silêncios abissais, de caminhos abertos e territórios por abrir, de uma grande pulsação rítmica e da eterna dissonância, da crónica deslocação mútua desses ritmos. No seu conjunto, era como uma bolha em ebulição num cadinho feito da [...]
Abril 23, 2008
Categorias: das cidades nervosas . . Autor: João Ventura . Comentários: 3 Comments
A literatura, então, como «uma tentativa de tornar real a vida», escreveu Pessoa. Ignorava o poeta que algumas décadas mais tarde Vila-Matas haveria de fazer da possibilidade de introduzir o real na ficção uma marca do seu estilo pessoal através da qual a aparência de verdade levada até ao extremo converte aquilo que no início é apenas verosímil numa nova forma de realidade que não necessita de nenhuma [...]
Abril 19, 2008
Categorias: contra a interpretação . . Autor: João Ventura . Comentários: 1 Comment
Releio todos os contos de Exploradores do abismo, de Enrique Vila-Matas e dou-me conta que tudo ali é tremendamente verosímil, até mesmo as histórias mais recambolescas como a dos encontros e desencontros entre o mais vilamatiano dos narradores, por acaso muito parecido com Vila-Matas ele mesmo, e Sophie Calle. O que faz, então, Vila-Matas caminhar como um funâmbulo da escrita sobre as [...]
Abril 16, 2008
Categorias: contra a interpretação . . Autor: João Ventura . Comentários: No Comments
Como um funâmbulo da leitura volto a caminhar em equilíbrio instável sobre a corda bamba que Enrique Vila-Matas estende sobre as dezanove estações abismais que integram a cartografia do vazio do seu mais recente livro, Exploradores do abismo, que a Teorema acaba de publicar. Mas, ao contrário da minha primeira expedição em que me deixei [...]
Abril 13, 2008
Categorias: contra a interpretação . . Autor: João Ventura . Comentários: 6 Comments
Escreve W. G. Sebald no breve ensaio «O mistério da pele castanho-rubra» (in Campo Santo) que dedica a Bruce Chatwin que os seus livros são difíceis de classificar. «[...] Histórias de aventuras ligadas às nossas primeiras leituras infantis, recolhas de factos reais, livros de sonhos, romances folclóricos, exemplos de exotismo apaixonado, penitências puritanas e arrebatadoras visões barrocas, [...]
Abril 8, 2008
Categorias: contra a interpretação . . Autor: João Ventura . Comentários: No Comments
Pergunta-se W. G. Sebald no micro-ensaio «Uma tentativa de restituição» (in Campo Santo) «quais são as relações invisíveis que determinam a nossa vida, como se estendessem os fios» entre acontecimentos distantes ditados por uma estranha lei que nos escapa. O que liga a prosa anímica do caminhante Sebald ao rasto já há muito extinto do [...]
Abril 4, 2008
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