Um tequila eloquente

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Garanto que não queria continuar a escrever sobre éteres mexicanos, para não atribuirem ao tequila, que raramente consumo, os estímulos espirituosos para os posts que aqui vou destilando. E a prová-lo, a circunstância de em cada uma das duas garrafas de Herradura que trouxe do México, restar ainda metade do seu líquido dourado; e do mezcal, apenas conhecer aquele que tomei com o «cônsul da embriaguez» em cantinas decadentes debaixo do vulcão. É que nisto das bebidas - que não na literatura -, embora não abstémio, assemelho-me a um sóbrio. 

Mas uma crónica do escritor mexicano Juan Villoro - também ele um sóbrio, mas só no que respeita a tequilas e outros álcools-, que encontro por acaso na net, convida-me, agora, para um tequila eloquente. Um tequila culto cujo nome, El Diablo, propõe o inferno sincero aos paraísos artificiais; e que, no verso do rótulo, para ser lido através da transparência dourada do líquido, como um peixe embriagado num «aquário ardente», oferece um poema de Eduardo Hurtado que nos recorda as irregulares qualidades etéreas do tequila: «El Diablo inventó los sueños/ la lujuria y el tequila,/ al fondo de esta botella/ duermen pasiones y asombros,/ mil años de amor punzante,/ las nubes en las cañadas/ y otras cosas intranquilas.»

Onde guardar, então, esta garrafa? Na garrafeira ou na livraria?

2 Comentários

  1. Comentário por Ana Cristina Leonardo on Março 17, 2008 2:04 am

    nem vou responder…

  2. Comentário por João Ventura on Março 17, 2008 8:14 pm

    Então respondo eu, se é que me é permitido responder aqui às minhas próprias perguntas. Talvez o melhor seja mesmo lê-lo de uma só respiração, bebê-lo de um só trago e, depois, deitar fora a garrafa vazia.

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