O anjo da história

 
Para que serve a literatura? Interroga-se W. G. Sebald no micro-ensaio Uma tentativa de restituição que integra o seu livro póstumo Campo Santo. «Talvez sirva apenas para nos lembrar, para nos ensinar a compreender que há estranhas ligações que a lógica casual é incapaz de explicar…», responde. Talvez sirva para dar conta da consternação do escritor ao ver [...]

A última caminhada

«O meu primeiro passeio no dia seguinte à chegada a Piana levou-me para fora da povoação, por uma rua que começava logo a descer numas curvas, esquinas e ziguezagues medonhos, ladeando precipícios rochosos quase verticais…». Quem por ali vai caminhando é um narrador que dá pelo nome de W. G. Sebald, o passeante solitário e [...]

Autobiografia oblíqua

 
A história já foi contada em várias ocasiões pelo próprio Sérgio Pitol que «vagamente intuiu a sua vocação para a literatura num engenho açucareiro veracruzano» durante uma infância trágica. «[…] Uma criança que aos quatro anos perdeu os pais, quase sempre doente, a cargo de uma magnífica avó» a quem deve a iniciação literária. «Comecei com Verne, Stevenson, Dickens […]. [...]

Longe de Coyoacán

 
«A nostalgia de um lugar enriquece-se sempre desde que se guarde como nostalgia», escreve Enrique Vila-Matas no seu desassossegante romance, Longe de Veracruz, que volto a folhear à procura de espirituosas anotações mexicanas para um post a haver. Assim permanece para mim, Coyoacán, aquele bairro de México DF que revisito agora nas fotografias que guardo no meu álbum mexicano.
Lembro-me que fui de metro a Coyoacán [...]

Um tequila eloquente

 
Garanto que não queria continuar a escrever sobre éteres mexicanos, para não atribuirem ao tequila, que raramente consumo, os estímulos espirituosos para os posts que aqui vou destilando. E a prová-lo, a circunstância de em cada uma das duas garrafas de Herradura que trouxe do México, restar ainda metade do seu líquido dourado; e do mezcal, apenas [...]

Outros abismos mexicanos

 
E neste exercício de economato literário, como lhe poderia chamar Enrique Vila-Matas, à medida que vou sublinhando no livro de Lowry os nomes das setenta e sete bebidas consumidas debaixo do vulcão, imagino-me de novo em Cuernavaca, agora no Dia dos Mortos, ao crepúsculo, sentado de frente para os vulcões gémeos replandescentes de neve, na esplanada [...]

Debaixo do vulcão

Lembro-me de há uns anos ir a caminho de Taxco pela estrada que sobe desde a cidade do México e, depois, se inclina para Cuernavaca, a cidade que em Debaixo do vulcão dá pelo nome de Quauhnahuac e onde nos habituámos a ver desesperar Malcolm Lowry. Lembro-me de errar através de um emaranhado de ruas ensolaradas; de atravessar um jardim decadente sob um céu [...]

Uma cena quase fulgor

 
Decido-me pela recomposição da mesma cena sem fulgor que aqui tentei há dias e que, subitamente, perdi numa fenda no monitor. Reconstituição de uma paisagem de livros amontoados sobre a escrivaninha, ancoradouro de imagens, descrições, conceitos, fonte de energia visível convocada para um texto a haver. Os livros são de Maria Gabriela Llansol (1931-200 - O livro das comunidades, Finita, Lisboaleipzig [...]

Uma cena sem fulgor

 
«Nunca me inquieto se o texto não vem. Posso passar dias sem escrever. Para mim mesma - não sou escritor. Sou uma contemplativa quando o texto chama. Mas custa-me vê-lo partir desde que comece a estar com ele». Eis a citação que roubo de Lisboaleipzig para me confortar da perda de um longo post que acabara de escrever sobre Maria Gabriela [...]