Desditosas pontes

 
Há alguns anos atravessei de comboio o território que corresponde hoje ao mosaico de novos países que resultaram da desagregação da antiga Jugoslávia e a imagem que ainda guardo dessas terras corresponde à lenda que agora leio relatada por Ali-hodza Mutevelic´ no romance de Ivo Andric´, A ponte sobre o Drina [Cavalo de Ferro], um território cuja superfície foi arranhada pelas garras do demónio, formando «profundos [...]

O homem sem qualidades

 
«… pensei, larga a técnica de uma vez por todas. Torna-te escritor, engraxador, criado, qualquer dessas coisas americanas, e afirma-te literariamente», anotara Robert Musil logo em 1905, num dos seus cadernos dos Diários. E aos poucos irá esvaziando a sua vida de qualidades, transformando-se, sobretudo a partir da segunda metade da década de vinte, num [...]

Desolação

 
No post anterior dizia que se tratava de encontrar passagens nesta paisagem de desolação que aí está povoada de luzes ofuscantes que os trapezistas do marketing não se cansam de, diariamente, nos ir acendendo. Mas hoje sinto-me na obrigação de abandonar a metáfora, ainda que apenas pelo tempo de escrita deste post, para repetir a mesma expressão de paisagem de desolação, só [...]

De um outro uso do nihilismo

Numa carta enviada a Louise Collet, em 1850, Flaubert escrevia: «O mundo vai tornar-se tremendamente imbecil. Nos próximos anos, a coisa vai ficar muito aborrecida. É uma sorte vivermos agora e não mais tarde» [Gallimard, 1998]. Flaubert antecipava, então, o apogeu da banalidade num mundo em que a gente dita ilustrada começava já a mover-se sem ética nem estética, prenunciando [...]

O cinema outra vez

 
Não vou muito ao cinema. Sobretudo porque a maioria dos filmes que passam por aí, nas salas periféricas da minha cidade, pouco ou nada me dizem. Prefiro, por isso, ficar em casa vendo os clássicos possíveis da minha colecção pessoal de DVDs. Porque o cinema, lá fora, mais do que a chamada sétima arte, tornou-se um negócio nas mãos de produtores altivos, de [...]

Desemalando uma biblioteca

 
Vou, então, desemalando os livros que trouxe comigo de Paris e arrumando-os nas prateleiras da minha biblioteca, isto é, subtraindo-os à desordem da mala escancarada para lhes ir dando uma ordem próxima da do coleccionador que é a do catálogo de leituras que carrego comigo e que, daqui a pouco, quando já estiverem os livros recém-chegados dispostos na prateleira, será também a do sentido que [...]