Flâneries

  Paris, 1857. Um homem caminha de olhos baixos por «uma nova avenida, ainda inacabada, ainda cheia de entulho [...] exibindo os seus inacabados esplendores». Ao lado, as ruínas dos velhos bairros - escuros, densos, assustadores – amontoadas no chão. Uma família andrajosa emerge do entulho à procura da nova luz da cidade moderna. No dobrar de uma esquina, [...]

Passeante do Loire

Também ele era um passeante e também ele desapareceu neste Dezembro nas margens do Loire. «Professeur, du géographe, du provincial, de l’amoureux du fleuve, du promeneur, du parisien d’adoption, de l’homme qui dit non, de l’ancien surréaliste qui l’était resté dans l’âme, de feu le communiste très provisoire, eis quem era, ainda, Julien Gracq (1910-2007), segundo o retrato que [...]

Passeantes de Dezembro

  Herisau, dia de Natal de 1956. Entre faias e abetos, na ladeira que desce do Schochenberg, um homem jaz no chão, confundindo-se com o deserto branco que o rodeia. A neve é o mais perfeito esconderijo. Depois de ter almoçado no sanatório, errara durante horas até ao coração do bosque, perdido. Ao longe, talvez, o toque lamentoso de um sino. A cabeça está apoiada sobre [...]

A invenção do ensaio

  Em 1571, o nobre senhor Michel Eyquem de Montaigne [1533-1592] ao passear a cavalo nos arredores de Bordéus teve um acidente que quase lhe custou a vida. Este episódio, que veio juntar-se à morte recente do pai, transmitiu-lhe uma tão aguda consciência da fragilidade da vida que decidiu abandonar os altos cargos de magistratura e retirar-se para as suas propriedades [...]

Literatura comestível

  Se uma madalena «mergulhada na infusão de chá preto ou de tília» pôde desencadear em Proust «recordações tanto tempo abandonadas longe da memória» que o levaram a escrever Em busca do tempo perdido, como não poderá a minha visita ao novo mercado de Portimão servir de pretexto para esta crónica comestível  cuja matéria verbal se dispõe, primeiro, em [...]

Escrita vegetal

  Leio traçando a lápis, simultaneamente, linhas de fuga e de intromissão sob os labirintos de tinta embebidos das páginas dos livros, como diria Walter Benjamin. Deixo, assim, a presença fragmentária da minha mão no corpo do texto, como se cada página fosse um território por medir, por interpretar, à espera do rasto vegetal - madeira e carvão - que vou deixando no chão da escrita, também ele vegetal [...]

O último Vila-Matas: funambulismos

  Contrariamente ao que pensaria Elias Canetti, para quem os exploradores jamais regressam dos mapas obscuros em que adentram, cruzo a última página de Exploradores del abismo [Enrique Vila-Matas, Anagrama, 2007] e como um funâmbulo regressado à plataforma segura onde se prende a corda estendida sobre aquela cartografia abismal, reencontro-me no lado de cá de um território fronteiriço, desolador e, às vezes, desassossegante, onde numa noite [...]

Falemos de Deus

  Raramente falamos de Deus.  E quando a ele nos referimos preferimos a metáfora, como se tudo o resto se descolasse do seu nome.  E ainda menos falamos dessa questão «menor» de acreditar ou não acreditar em Deus, preferindo cruzar os braços contra a crença profunda em que nascemos.  A verdade é que herdámos Deus mesmo antes de [...]

  • O ESCREVENTE

    Um blogue de João Ventura® (joaobventura@yahoo.com) «fora das coisas civis e na mais pura região da arte» [Joseph Joubert]
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