Diário chileno (V). Entardecer nervoso

 
Todas as cidades têm o seu aleph, isto é, um lugar secreto capaz de albergar todas as representações que fomos construindo sobre cada uma delas. Em Santiago, procuro-o ao entardecer nervoso, desde a Plaza de Armas, ocupada por pintores que reivindincam aquele espaço para expor o seu trabalho, jogadores de xadrez e damas, desempregados e passeantes fortuitos como eu. Sigo por Ahumada [...]

Diário chileno (IV). Santiago do Chile

 
Chego a Santiago do Chile 26 horas depois de ter saído de casa. A combi que me transporta desde o aeroporto Toribio Merino acompanhando a corrente poluída do rio Mapoche, atravessa agora uma cidade radiante, com incandescentes torres de vidro pós-modernas e gigantescos centros comerciais coabitando com veneráveis habitações coloniais, alguns edifícios Art Deco e outros sem estilo nenhum, numa acumulação espalhafatosa de formas que compoem o mixt arquitectónico de [...]

Diário chileno (III). Fazer a mala com Bolaño

 
E que levar na mala? Roupas frescas, porque agora começa o Verão austral; também uns agasalhos porque, à noite, a sopra uma aragem fresca  vinda da cordilheira, adverte-me o Daniel Barraco. Algumas prendas, claro. Marisa ao vivo em Lisboa, a incontornável garrafa de Porto e um queijo e estrelas de figo que comprei hoje no mercado. Pequenos sabores de um tempo em desagregação. [...]

Diário chileno (II). Plano de evasão

«Perder-se numa cidade, tal como é possível acontecer num bosque requer instrução», diz Walter Benjamin. Por isso, quando partimos, não como turistas fortuitos, mas como viajantes intrépidos adentrando-nos por mapas por fazer, é útil prevenirmo-nos com um plano de evasão, recolhendo antecipadamente informação sob os territórios de fuga, mapeando percursos, inventariando paisagens e lugares a visitar, registando [...]

Diário chileno (I). Lonjuras

 
Do Chile, contou-me Neruda das soberbas paisagens e dos aromas, das madrugadas e dos crepúsculos, do estoicismo e da hospitalidade das suas gentes. E também dos «exílios que mordem e [de] outros [que] são como fogo que consome». E do «medo como um sabor metálico na boca», ouvi contar Isabel Allende. E Roberto Bolaño, o [...]

A página assinalada

 
Na corrente proposta pela Maria do Rosário/Divas & Contrabaixos, poderia ser outro livro qualquer e outra página qualquer a assinalar, mas o acaso surpreendeu-me regressando do mapa obscuro onde Canetti acharia que me perderia enquanto expedicionário, tantas são as bifurcações que irrompem nesse abismo que ousei explorar em noites recentes sem outra orientação que não [...]

Um lugar no atlas

 
Ainda o descentramento do olhar na exposição Atlas Group -que pode ser visitada como mais uma estação do atlas dos acontecimentos da Gulbenkian – um projecto de Walid Raad sobre a história contemporânea do Líbano visando a desmontagem dos dispositivos mediáticos responsáveis pela coisificação da memória recente dos acontecimentos nesse lugar do atlas. Uma espécie de arquivo visitável – constituído por [...]

Lisboa entre o azul e o negro

 
«Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo», escreveu Álvaro de Campos, que dizia viver em Lisboa como um fósforo sem chama enquanto pelas paredes das casas escorriam lágrimas amargas que humedeciam o seu sonho. «Outra vez te revejo, / cidade da minha infância pavorosamente perdida / cidade triste e alegre, outra vez te sonho aqui». Eis Lisboa, [...]

Madrid é uma festa

Num conto breve de Kafka, intitulado A partida, alguém pergunta: - «Conheces, então, a tua meta?». -«Sim [foi a resposta]. Já disse. Sair daqui: esta é minha meta». No meu plano de evasão constantemente renovado, Madrid foi a minha meta no último fim de semana prolongado. Deixo aqui uma espécie de cartografia espiritual de um fim de semana que nunca se acaba, pois [...]

Retrato breve

 
Conheço pouco da obra de Doris Lessing, a laureada deste ano, mas gosto do seu olhar tranquilo, luminoso e, simultaneamente, distante. E mais do que a sua obra, desperta-me curiosidade a sua biografia. Uma mulher que nasce em Kermanshah, na Pérsia, e vai viver para África aos seis anos, que trabalha como telefonista em Salisbury, que é capaz de andar de [...]

Danças com Che

 
No passado sábado enquanto lia o suplemento literário do El Pais na esplanada do Círculo de Artes, em plena Gran Via, em Madrid, alguém, que me pareceu de imediato muito familiar, se sentou na mesa ao lado e pediu que lhe trouxessem um Habana Club com gelo. Durante algum tempo procurei recordar de onde conheceria eu aquele rosto. Ainda [...]

Espião casual

 
Diz António Trabucchi que todos os escritores são um pouco voyeurs, todos olham para lá das portas que abrem para os abismos de todos os dias, procurando roubar a experiência de outras vidas. Enrique Vila-Matas confessa esse pecado dizendo que tem por hábito fazer de espião casual no autocarro nº 24 que percorre «la calle [...]

Os dias calcinados

 
Durante o Verão, surgiu uma tromba de fogo no crepúsculo do Árctico, sobre o mar de Barens, derramando sobre as nuvens baixas que encobriam o céu de Hammerfest uma luminosidade laranja espectral, anunciando a extensão à cena árctica da nova versão patética da tetralogia de Wagner, agora reposta sob a forma da maldição do gás adormecido durante milhões de anos sob as [...]

Madame Bovary e os seus duplos

 
«E como eram as ligas de Madame Bovary?», interroga-se Francisco Umbral no retrato que traça da personagem de Flaubert num pequeno livro que toma por título precisamente essa interrogação [Campo das Letras, 2005]. É que apesar da miniaturização estética do romance esse pormenor nunca nos é revelado, muito menos  no final daquele passeio de fiacre, ao ritmo [...]