Ensaio sobre a loucura

 
Há dias, contava-me Gonçalo M. Tavares que num encontro com leitores alguém teria dito que ele era louco, pois só um louco escreveria histórias como as dos seus livros negros. Com a lucidez que se lhe conhece, Gonçalo esclareceu que ele era um e quem escreve-narra nos seus romances é um outro que não se confunde com [...]

A escrita dos livros

Como escrevem os escritores? Por que territórios da escrita se aventuram para deixar visíveis os rastos no papel? E a que instrumentos recorrem para gravar a consternação do  mundo? Primeiro, há a página em branco que é a praia onde se derrama a escrita. E que pode ser, também, a figura atrás da qual se escondem os [...]

Janela indiscreta

 
Há filmes que eu veria dia sim dia não se tivesse tempo: Fellini, “Oito e Meio”, a “Lolita” de Kubrick, “O Crepúsculo dos Deuses”, “A Hora do Lobo”, de Bergman, “Janela Indiscreta”, de Hitchcock, “As Férias do Senhor Hulot” ou ”O Meu Tio” de Jacques Tati, ou ”O Padrinho”…, confessa David Lynch, e eu que tenho andado [...]

O passageiro Walter Benjamin

 
Port Bou 1940. Em 25 de Setembro, após sete anos de exílio, Walter Benjamin atravessa os Pirenéus num esforço desesperado para escapar à ocupação da França pelos nazis. Pretende atravessar clandestinamente a fronteira e, através da Espanha franquista, chegar a Lisboa - por onde passaram também outros artistas e intelectuais em fuga, como Franz Werfel, Heirich Mann ou [...]

Portugal: um retrato social

 
Ontem passou na RTP1 o 4º episódio da série documental Portugal - Um retrato social, da autoria de António Barreto, com realização de Julia Pontes e pesquisa documental de Maria João Silva. Um programa que é uma raridade num serviço público que falha no essencial, apagando tudo aquilo que seria importante para ajudar a traçar [...]

Contra o fanatismo

Quando deixou de odiar os pais escreveu Uma história de amor e de trevas [ASA, 2007] que sendo um livro onde resgata a memória da sua família é, sobretudo, um espelho onde todos os judeus da Europa se podem rever. Um livro sobre a criação de Israel, erguida sobre uma terra queimada, cheia de pedras, primeiro as da [...]

Sebald: viagem entre ruínas

 
Será possível, ainda, a grandeza literária? Ante a decadência implacável da ambição literária, a convergente ascensão de desengano, a verborreia e a crueldade insensível como assuntos normativos da ficção ?… interrogava-se Susan Sontag a propósito da obra de W. G. Sebald. Uma literatura capaz de exprimir a consternação do mundo tão cheio de falsas representações, tão [...]

António Ramos Rosa, um poeta do Sul

 
O que há de comum entre António Ramos Rosa e alguns escritores que me têm caído aqui? Haverá algum fio invisível a ligar o poeta a Walser, Emmanuel Bove, Sebald, também eles cultores de uma metaliteratura?… Teria Ramos Rosa lido estes escritores angélicos? Liga-os talvez a ideia de que o poeta é o que sacrifica tudo [...]

Nomadismos

 
Fui fotografando calmamente, sem ansiedades, porque mais importante do que as imagens eram as palavras, as conversas. Tinha a nítida sensação de estar perante um sábio, um homem que tinha vivido, traçado o seu destino, encontrado a sua alma. A casa e a pessoa de Bowles irradiavam serenidade, apesar da sua biografia e do monte [...]

Literatura sem escritores

Escreve W. G. Sebald que à sua volta tudo se desumaniza ou desaparece e que inclusive a própria História se desvanece. E que neste processo de aceleração imparável é conveniente que a literatura se encarregue desta consternação. Mas Sebald já cá não está. Nem Mann, nem Musil, nem Walser, nem outros que acreditaram na capacidade [...]

Os Doors: une saison en enfer

Há um verso de William Blake que diz que if the doors of perception were cleansed, every thing would appear to man as it is, infinite. Talvez mais do que a inspiração para o nome da banda, os Doors tenham ido buscar a Blake a energia para atravessarem as portas para o território negro dos discos que viriam a criar, celebrando [...]

A última viagem de Pepe Carvalho

 
Conta-se que o original se encontrava na pasta que trazia consigo no regresso de uma viagem à Austrália, quando foi acometido por uma síncope fatal num aeroporto. O próprio Vázquez Montalbán disse que Milénio (I e II) estava na sua cabeça há mais de trinta anos, pois não queria morrer sem dar um rumo a [...]