Doutor Pasavento (III): as regiões inferiores

 
Chego ao final de Doutor Pasavento de Enrique Vila-Matas e o que me cai é um meta-romance-ensaio onde se respira a mesma ironia shandiana dos livros anteriores do autor, agora utilizando um estilo mais sóbrio, menos impertinente, mas sempre com uma escrita culta, lúdica, provocatória quanto baste, que propõe uma desconstrução da figura do autor, concluindo, assim, a sua [...]

O rapto da Europa

Na manhã seguinte, nevava em Zurique. Saí do hotel com o chapéu de feltro e o meu guarda-chuva, e fui tomar o pequeno almoço ao velho e famoso Café Odeon, de que sempre se disse que Lenine, assíduo cliente daquele estabelecimento, pôde trocar mais de uma palavra com James Joyce, outro cliente habitual. Ah, o [...]

Combateremos a sombra (II): os arredores do livro

Surpreende-se Lídia Jorge porque Manuel Maria Carrilho ficou surpreendido quando a escritora o convidou para apresentar o seu novo romance, Combateremos a sombra. Ele, também, nas palavras da escritora, um homem de causas. Como ela, digo eu. Depois, evoca Lilith, esse filme perturbante, esquecido, de Robert Rossen que, fica-se a saber, ambos viram. Um filme, desde [...]

Ouvir a maresia do mundo

Se o poema é, diz António Ramos Rosa, como um búzio em que ressoa a maresia do mundo, ouvir na noite de ontem, em Portimão, o recital de Sandro Junqueira(voz) e de Luis Conceição (piano) foi sentir o desejo de pertencer à terra como uma árvore que se inclina sobre as ondas. As palavras de Ramos Rosa, [...]

As coisas mais simples

 
Dizem que o poeta tem seis sentidos: os sentidos, com os seus traços lineares,/ são cinco como os quatro elementos mais/ o éter dos alquimistas. À volta deles anda o sexto/ que nasce da ideia do homem/ de que falta sempre qualquer coisa para atingir/ a perfeição.  O poeta habita uma casa na Mexilhoeira Grande. No quintal do [...]

Combateremos a sombra (I): Portugal no divã

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Comecei a escrever para poder responder a alguma coisa longínqua que me chamava. A realidade era mesquinha, não chegava, escrevia e no final da página conseguia esse percurso, confessa Lídia Jorge em entrevista publicada no Jornal de Letras. Três décadas depois do seu romance inaugural, O dia dos prodígios, a realidade continua a ser mesquinha e, por isso, Lídia Jorge continua a responder [...]

A história do amor

 
 
 
 
 
 
 
 
 
A revista Granta, uma referência na literatura americana, acaba de anunciar a lista dos 21 Best of Young American Novelists 2, onde se encontram três autores traduzidos em Portugal: Jonathan Safran Foer (Está tudo iluminado), Gabe Hudson (Estimado Sr. Bush) e Nicole Kraus (A história do amor). Segundo a Granta trata-se de uma nova geração de escritores [...]

Esta noite vi-te em Babilónia

Quem entrar, hoje, pela primeira vez, neste blogue e ler o post que agora ponho em andamento, talvez fique com a impressão de que entrou em algo que teve um começo anterior, pois faltará o contexto de algumas referências. O efeito poderá ser o mesmo da sequência inicial do filme Viagem a Itália, de Rosselini, evocado em Doutor Pasavento, livro [...]

Metablogue (III): microtextos

Desde que descobri a blogosfera tenho andado por aí num nomadismo intencional, procurando descobrir o que nos leva a inscrever itinerários pessoais num espaço de exposição pública. Muitos blogues têm claramente uma intenção diarística, como o Rui Bebiano, ontem, dizia. O meu, em certa medida, não deixa de ser também confessional. Mas não o serão todos, [...]

Doutor Pasavento (II): também Pessoa

 
 
 
 
 
 
Sou o Doutor Pasavento, assim se apresentou Enrique Vila-Matas, na Póvoa de Varzim/Correntes d´Escrita. Mas à medida que avanço na leitura do romance homónimo, pergunto-me em qual Pasavento encarnou o escritor que ao longo do texto parece metamorfosear-se em vários Pasaventos? Trata-se de um processo narrativo que evoca a construção heteronímica de Pessoa, também ele um [...]

Doutor Pasavento (I): da impossibilidade do desaparecimento

Ainda ontem escrevia aqui sobre a natureza deste blogue como construção do eu e marcação do autor, motivação que, mesmo admitindo sem qualquer presunção que outros também aqui poderão ler o que eu tenho para dizer, interessará, sobretudo, a mim mesmo, correspondendo à assunção deste espaço de anotação do que sobra dos dias, dos meus dias, [...]

Metablogue (II): construção do sujeito

Na edição espanhola da revista Granta leio alguma páginas do Diário de Susan Sontag que me fazem retomar a breve reflexão do meu primeiro post em torno da motivação e do método deste blogue.
Por que é importante escrever? Sobretudo por egoísmo, suponho. Porque quero ser essa personagem, um[a] escritor[a], e não porque haja algo que deva dizer. Mas por [...]

Simulacro e realidade

Pensador do quotidiano contemporâneo, mas ineficaz na sua interpelação racional porque enredado na própria teia que teceu para abordar a sociedade de consumo onde, em sua opinião, tudo se desvaneceria e tudo não passaria de um simulacro da realidade travestida numa sucessão de acontecimentos transcendentes, Jean Baudrillard morreu ontem, em Paris, com 77 anos de [...]

Murakami

Não há kimonos, nem bonsais, nem cerimónias do chá. Em vez de sushi , as personagens cozinham spaghetti. Apenas algumas referências toponímicas ou gastronómicas dão uma cor local a histórias que se passam, sobretudo, em Tóquio, mas que se poderiam passar em qualquer cidade do Ocidente. Sobretudo, nos EUA, tal é a profusão de símbolos do [...]

Entre fronteiras de sal

Há uma revista em Portimão que vai ligando os dois lados do mar. A Atlântica faz-se de cumplicidades entre vaga gente que reinventa uma outra America sin nombre: a do sul, para onde aponta Sagres, promontório de todas as partidas. De periferias, portanto, trata esta revista, a periferia cultural do lugar onde é lançada ao [...]